A riqueza que brota da terra brasileira, abundante e fecunda, parece hoje um dado natural, uma herança milenar. O Brasil, celeiro do mundo em sete culturas essenciais, com uma produção de grãos multiplicada por nove em poucas décadas, é visto como um gigante agrário. Mas esta colheita extraordinária não é fruto de acaso ou de um solo predestinado; é o resultado de uma semeadura deliberada, de um trabalho paciente e de uma visão intelectual profunda, cuja história de origem merece ser contada com toda a verdade e justiça devida a seus artífices.
Por muito tempo, a narrativa popular apontou Alysson Paolinelli como o “pai” da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), uma figura emblemática de uma gestão que realmente impulsionou a criação de inúmeras unidades e a expansão da pesquisa. Contudo, os factos trazidos à luz por historiadores e economistas, apoiados por testemunhos diretos, revelam uma gênese mais complexa e, acima de tudo, um protagonista intelectual que por décadas permaneceu nas sombras, contrariando a reta ordem do reconhecimento devido. Eliseu Alves, matemático autodidata e economista agrícola, figura de profunda modéstia pessoal, é o verdadeiro motor conceitual por trás da Embrapa. Foi sua “sacada”, articulada ao colega José Pastore, de que o Brasil não carecia de difusão de tecnologia, mas de criação de tecnologia própria para o clima tropical, que acendeu a faísca.
A ideia de Alves, que culminou na proposta de formar mil doutores no exterior para construir o capital humano da futura empresa, foi a semente plantada. Sem essa compreensão fundamental da necessidade de um corpo intelectual robusto e de pesquisas adaptadas à realidade brasileira, a Embrapa não teria nascido com a vocação que a tornaria um pilar do desenvolvimento nacional. O grupo liderado por Pastore, a receptividade do então ministro Luiz Fernando Cirne Lima, e o apoio do presidente Médici foram passos essenciais na formalização. A renúncia de Cirne Lima, poucos dias após a fundação, e a subsequente e grandiosa tarefa de implantação sob Alysson Paolinelli, que mobilizou o Brasil e o mundo para dar corpo à visão, acabaram por ofuscar a claridade da origem intelectual. A modéstia de Eliseu Alves e de Pastore, somada à visibilidade política de Paolinelli, criou uma assimetria na memória pública que precisa ser retificada.
O artigo não busca diminuir a contribuição de Paolinelli ou de Cirne Lima; ao contrário, reconhece a orquestração de mentes e vontades necessárias para erguer um empreendimento de tamanha envergadura. Paolinelli foi o grande construtor da Embrapa no terreno, transformando a ideia em uma força produtiva capilarizada pelo país. Mas a justiça exige que a veracidade histórica seja restaurada. A criação de uma instituição de ponta como a Embrapa é um testemunho da capacidade de associações livres e da inteligência que, por vezes, opera longe dos holofotes. O estudo do MIT, que estima um retorno de 17 dólares para cada dólar investido na Embrapa, atesta o valor dessa visão primígena.
É um dever da nação, e especialmente da própria Embrapa, não apenas celebrar seus êxitos, mas também os homens e mulheres que, com honestidade intelectual e laboriosidade silenciosa, lançaram as bases para eles. A recente iniciativa de resgatar o papel de Eliseu Alves e de honrar José Pastore, mesmo que tardiamente, é um gesto de magnanimidade institucional. Não se trata de substituir um herói por outro, mas de compor a sinfonia completa da criação, dando a cada instrumentista o seu devido lugar e a justa medida de seu mérito, reconhecendo que a grandeza de uma obra coletiva reside na ordem justa de suas múltiplas contribuições.
A Embrapa, em sua maturidade de cinquenta anos, tem a responsabilidade de ser um farol não só de tecnologia, mas de retidão histórica. O resgate da figura de Eliseu Alves ilumina um princípio fundamental: o valor da ideia, da concepção original, do espírito que precede a matéria e que molda o que virá a ser. É um convite a valorizar não apenas os implementadores visíveis, mas também os pensadores, os sementes da ideia que, com veracidade e despretensão, geraram os maiores frutos.
A nação que esquece seus intelectuais originais, mesmo os mais discretos, empobrece sua própria capacidade de reconhecer o germe do futuro.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.