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Gaza: Eleições em Deir al-Balah e o Limite da Democracia

Em Deir al-Balah, Gaza realiza eleições locais em meio à devastação. O artigo explora o paradoxo de um voto sob ocupação, o controle do Hamas e a busca por real soberania.

🟢 Análise

Uma planta, para florescer, precisa de solo fértil, água e luz. Em Deir al-Balah, entre os escombros de uma guerra brutal, a semente da democracia tenta brotar, mas em um terreno árido de paradoxos. A primeira eleição local em Gaza em duas décadas, organizada pela Autoridade Palestina, é um gesto de resiliência e a manifestação mais elementar da esperança de um povo por serviços básicos e alguma forma de governo ordinário, mesmo após anos de bombardeios, deslocamentos e controle autoritário. É a voz de 70 mil pessoas aptas a votar que se ergue para reclamar saneamento, água e controle de preços, bens de primeira ordem para a dignidade da vida comum.

Contudo, é preciso clareza para não confundir o desejo legítimo com a realidade factível. A imagem de uma eleição em um território devastado, onde o poder de facto ainda reside largamente nas mãos de um grupo armado que promete “não interferir” – o Hamas – e onde a Autoridade Palestina não exerce controle soberano, cheira a uma peculiar dissonância. Por mais que o Hamas afirme que entregará responsabilidades aos vencedores, a questão da soberania real e da capacidade de governança efetiva permanece suspensa no ar. O governo israelense, que insiste em impedir qualquer papel da AP em Gaza e restringe severamente a entrada de materiais de reconstrução sob a justificativa de segurança, detém um poder de veto prático sobre qualquer real mudança na vida dos cidadãos.

A Doutrina Social da Igreja, ao falar da subsidiariedade, enfatiza que as comunidades menores devem ter a capacidade de resolver seus próprios problemas, e que poderes maiores só devem intervir quando necessário, sempre para auxiliar, e não para suplantar. Aqui, vemos uma inversão distorcida: a tentativa de estabelecer um corpo intermediário – o conselho municipal – é esmagada pelas macroestruturas de poder, tanto a ocupação israelense quanto o controle residual do Hamas. As eleições correm o risco de, paradoxalmente, legitimar a ausência de soberania real, ao criar a ilusão de autogoverno enquanto as decisões fundamentais permanecem nas mãos de potências externas ou atores não-democráticos.

Não se trata de negar a importância do voto ou o anseio por ordem e melhoria. O médico Abd al-Rahman al-Masri, de 27 anos, fala pela sua geração ao dizer que “toda a minha geração esperou por essa oportunidade”. O engenheiro Osama al-Louh denuncia a disparidade na distribuição de água como “favoritismo”, clamando por justiça na administração do comum. Esses são os ecos do “povo” a que se referia Pio XII, que busca ativamente participar e moldar seu destino, em contraste com a “massa” amorfa, manipulada e sujeita passivamente às forças externas.

Mas a justiça material e a veracidade exigem que se olhe para além do rito. Que tipo de conselho municipal pode realmente funcionar quando as urnas dependem da permissão de uma potência externa e a reconstrução de infraestrutura básica – que um engenheiro estima em um bilhão de dólares – é inviabilizada pela restrição de insumos? A promessa de melhorar o saneamento e o controle de preços, embora crucial, revela a escala limitada das aspirações permitidas, muito aquém de uma verdadeira reconstrução civil e política. É o paradoxo chestertoniano do “progresso” que nos leva a lugares que não queremos, ou, no caso, nos prende em um limbo onde a forma da liberdade é permitida, mas sua substância, confiscada.

Para que as eleições em Deir al-Balah sejam mais do que um programa-piloto de fumaça, é preciso que a comunidade internacional, e principalmente os poderes em jogo, ofereçam um terreno onde a árvore da subsidiariedade possa fincar raízes, com acesso irrestrito aos materiais de reconstrução e um compromisso inabalável com a autonomia real. A eleição é um ato de esperança, sim, mas a esperança, para ser fecunda, precisa de uma realidade que a sustente, não de um simulacro que a frustre.

A verdadeira liberdade não floresce em solo minado, mas em um terreno de soberania onde as sementes da justiça podem se enraizar sem medo de serem pisoteadas por poderes que se dizem neutros ou protetores.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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