Quando apenas um quarto dos eleitores americanos declara confiança na lisura do processo que lhes define o destino cívico, a crise que se anuncia não é meramente política; é uma doença que corrói os alicerces da comunidade. Não se trata apenas da iminência de eleições conturbadas, mas da corrosão da própria ideia de povo, substituída por massas fragmentadas que se percebem mutuamente como moralmente perversas, como revelam as pesquisas de opinião. A tentação de instrumentalizar essa desconfiança, seja por meio de decretos federais inconstitucionais que visam controlar a administração eleitoral dos estados, seja pela insistência em narrativas de fraude sem base judicial, configura um vandalismo moral que transcende a disputa partidária e atinge a ordem pública.
As tentativas de federalizar a administração eleitoral, constitucionalmente delegada aos estados, são um ataque direto à liberdade ordenada e ao princípio de subsidiariedade. O que a Constituição americana sagra é a responsabilidade dos corpos intermediários e das esferas locais na gestão do processo democrático, um eco distante da sabedoria que São Tomás de Aquino via na ordem das coisas e que o Papa Pio XI tão veementemente defendeu. A judicialização exaustiva e sem fundamento de resultados eleitorais, como visto em 2020 — com todas as ações rejeitadas pelos tribunais — esgota não apenas os recursos legais, mas a fé pública na imparcialidade das instituições, transformando o devido processo em espetáculo de deslegitimação.
Contudo, reduzir o problema a um único ator ou a um ciclo eleitoral específico seria um reducionismo perigoso. A queda na confiança cívica, embora tenha se aprofundado com as controvérsias recentes, já havia se manifestado no início do milênio, após a decisão da Suprema Corte no caso Bush versus Gore. Isso indica uma falha mais profunda no tecido social e político, onde a polarização transformou o adversário em inimigo, e a honestidade de qualquer parte é posta em xeque. Quando mais da metade dos cidadãos considera seus concidadãos moralmente ruins, o problema não é apenas de informação; é uma crise de reconhecimento mútuo, um esvaziamento da virtude da veracidade e da humildade necessárias para se viver em sociedade.
A Doutrina Social da Igreja sempre apontou para a primazia da ordem moral pública como condição para a paz e a estabilidade. A verdade não é um luxo, mas o fundamento da justiça, e a mentira pública, deliberadamente disseminada para deslegitimar processos legítimos, é um veneno. A solidez de uma república depende não apenas de leis bem escritas, mas da disposição de seus cidadãos e líderes em aceitá-las e defendê-las, mesmo quando os resultados não lhes são favoráveis. A recusa em reconhecer a derrota, quando validada por um sistema judicial robusto, não é um sinal de fortaleza, mas de uma soberba ideológica que confunde a própria vontade com a lei.
Não é possível construir uma comunidade política funcional quando o contrato social tácito, que é a aceitação das regras do jogo democrático, é rompido unilateralmente pela suspeita permanente. A sanidade cívica, como Chesterton bem notaria, exige uma certa humildade diante da realidade e das instituições que, por mais imperfeitas que sejam, são construídas para mediar os conflitos de uma sociedade plural. É uma loucura tentar demolir a casa comum sob o pretexto de que ela está suja, sem oferecer um plano concreto de limpeza e restauração que não comece pela picareta da desconfiança.
Para superar essa crise, não bastam vitórias eleitorais ou condenações judiciais. É preciso um retorno à ética da responsabilidade e da veracidade, em que a administração das eleições seja vista não como uma arena de batalha partidária, mas como um serviço essencial à justiça cívica. Isso implica fortalecer os funcionários e voluntários eleitorais, garantir a transparência do processo local e exigir que os líderes políticos de todos os espectros elevem o debate, pautados pela busca da verdade e pelo respeito mútuo. A virtude da fortaleza se manifesta não na intransigência dogmática, mas na perseverança em construir pontes de confiança onde hoje só há muros de suspeita.
A restauração da confiança nos processos eleitorais e, por extensão, na própria vida cívica americana, não virá de um governo federal onipotente ou de uma vitória esmagadora de um lado sobre o outro. Ela brotará, antes, da reconstrução paciente da veracidade nas palavras, da justiça nos atos e da humildade em reconhecer que a ordem social é um bem comum que antecede e transcende qualquer ambição partidária.
Fonte original: Estadão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
Artigos Relacionados
Violência Política nos EUA: A Retórica Que Desumaniza
EUA: Violência Política e a Erosão Ética da Vida Cívica