Há uma ilusão perigosa, cultivada pelos arautos da modernidade, de que o progresso civilizatório, por si só, purgaria o campo político da bestialidade. Contudo, a história, teimosa mestra, insiste em desmentir essa quimera a cada nova cicatriz na face da república. O recente ataque em um jantar da Casa Branca, ainda que nebuloso em seus detalhes, não é um raio em céu sereno, mas o eco de uma tempestade antiga que ressoa em solo americano. Desde o assassinato de Lincoln em 1865, passando por Garfield, McKinley, Kennedy, e os atentados contra Ronald Reagan e Theodore Roosevelt, a violência política tem sido uma companhia sombria no percurso da nação. A segurança de líderes e a integridade da vida pública, portanto, não são conquistas permanentes, mas bens que exigem constante e vigilante edificação.
É vital, todavia, discernir entre a legitimidade da preocupação e a tentação do alarmismo que simplifica o complexo. Reconhecer a recorrência histórica da violência política – com picos nos anos 60 e 70, e agora ressurgindo com força – é um antídoto contra a narrativa de uma crise sem precedentes, gerada apenas pela retórica de hoje. A ficha factual nos mostra que agressores muitas vezes carregam motivações políticas entrelaçdas com desequilíbrios mentais, uma disputa que historiadores e manuais jurídicos não resolvem com facilidade. Reduzir a causa da violência unicamente à “retórica inflamatória” é desconsiderar a teia de fatores — desde a saúde mental precária até a facilidade de acesso a meios letais — que predispõem certas almas ao extremismo.
Neste cenário de confusão, a distinção feita por Pio XII entre “povo” e “massa” torna-se crucial. O povo, enquanto organismo social, é capaz de juízo ponderado, de diálogo e de adesão voluntária a um projeto comum. A massa, por outro lado, é um aglomerado informe, facilmente instrumentalizável, desprovido de razão crítica e suscetível à emoção bruta. Uma retórica política que desumaniza o adversário, que o pinta não como um rival, mas como um inimigo a ser aniquilado, não se dirige ao povo, mas busca instigar a massa. Ela corrói a dignidade da pessoa humana do oponente e, ao fazê-lo, pavimenta o caminho para que atos de violência pareçam justificados aos olhos de uma minoria radicalizada.
É um erro crasso, e intelectualmente desonesto, tentar forçar uma simetria de culpa entre todos os lados do espectro político. Há uma diferença abissal entre o debate vigoroso, por mais áspero que seja, e a incitação velada ou explícita à agressão física. Quando líderes de peso encorajam apoiadores a agredir manifestantes, aplaudem atos de violência contra jornalistas, ou prometem perdões a insurgentes que atacaram instituições democráticas, a linha da comunicação responsável é quebrada de maneira irremediável. Onde Joe Biden condena a violência política e a necessidade de reduzir a temperatura, as ações de alguns de seus rivais parecem semear deliberadamente a discórdia, transformando o campo da política em um verdadeiro campo de batalha, não apenas retórico.
A sanidade contra a loucura lógica das ideologias, um conceito tão caro a Chesterton, é aqui a virtude salvadora. Não se trata de polidez vazia, mas de uma liberdade ordenada, como ensinava Leão XIII, que reconhece os limites do discurso e a sacralidade da vida e da integridade do outro. A liberdade de expressão não é uma licença para destruir a ordem moral pública ou para encorajar o crime. A verdadeira justiça exige que se atribua a responsabilidade com precisão, distinguindo entre a crítica legítima e a pregação do ódio. A política nunca deve ser um teatro para a barbárie; ela é, em sua essência, a arte de governar a cidade em busca do bem comum, um ofício que demanda grandeza de alma e uma atenção escrupulosa à verdade dos fatos e das intenções.
A maioria dos americanos, felizmente, rejeita a violência política. Contudo, a minoria que a justifica é uma semente venenosa que, se não contida, pode corromper todo o solo cívico. A reconstrução da confiança e da capacidade de diálogo exige mais do que meras leis de controle; exige um resgate da cultura cívica, uma educação para as virtudes que freiam a paixão e elevam a razão. Isso implica não apenas a denúncia da irresponsabilidade retórica, mas a promoção de uma formação moral e cultural que valorize o contraditório, sem que ele se transforme em pretexto para a destruição.
O futuro da república não se decide apenas nas urnas, mas na maneira como se semeia a palavra e se cultiva o espírito público. A retórica violenta é um veneno lento que corrói a alma da sociedade, transformando cidadãos em facções irascíveis. O dever de cada um é vigiar o próprio discurso e exigir de seus líderes não o mero eco de suas paixões, mas a voz da razão e da magnanimidade. Somente assim o campo da política, que pode dar frutos amargos de violência, poderá voltar a ser um jardim de civilidade.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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