Quando o alarme de um avião acende no painel, o pânico é imediato. Mas quando o alarme é o próprio Capitão da República, avisando que o combustível está no fim e os pilotos brigam pela rota, a situação se agrava: não há paraquedas moral para a irresponsabilidade que coloca em risco não apenas uma aeronave, mas todo o espaço aéreo e o território sob vigilância. É o que se assiste agora nos Estados Unidos, onde a Casa Branca alerta que os fundos para pagar funcionários do Departamento de Segurança Interna (DHS) se esgotarão em breve, ameaçando a estabilidade de agências como a TSA e a Patrulha da Fronteira. Uma paralisia legislativa de proporções inéditas está desfiando o tecido da segurança nacional.
Há mais de dois meses o DHS opera sem verbas regulares. O que antes era mitigado por decretos presidenciais, como os que garantiam o salário de agentes da TSA, chega agora a um limite insustentável. Mais de mil agentes já pediram demissão, sinal de um ambiente de trabalho que transforma dever em incerteza. Não se trata de um problema meramente burocrático; é uma grave falha na ordem da justiça social, que deve assegurar o salário devido ao trabalhador e a paz social ao cidadão. O Estado, em sua função primária de garantir a segurança, está sendo desarmado por dentro, não por uma ameaça externa, mas pela inação de seus próprios legisladores. A recente tentativa de um homem armado de invadir um evento da Casa Branca, embora não diretamente ligada à falta de verbas, ressoa como um lembrete sombrio das vulnerabilidades que se abrem quando as guardas baixam.
É preciso, contudo, discernir a gravidade do fato da retórica política. Não é improvável que a administração em exercício utilize o alerta de “crise iminente” como uma forma de pressionar o Congresso, capitalizando a preocupação pública para impulsionar uma agenda específica. A paralisação não se resume a um mero capricho de facções; por trás dela, há profundas e legítimas divergências, como a recusa de democratas em financiar o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) sem “mudanças operacionais”. Tais impasses são próprios da vida política. Mas a busca por uma vitória ideológica não pode justificar a sabotagem do funcionamento essencial das instituições. O Congresso não pode, sob o pretexto de um embate ideológico, negar o financiamento básico para que o Estado cumpra suas obrigações mais fundamentais.
A Igreja, através de Pio XI e Leão XIII, ensina que a autoridade legítima existe para o serviço do povo e para a promoção de uma ordem justa. Quando o funcionamento do Estado se torna refém de disputas partidárias a ponto de negligenciar o salário dos trabalhadores e a segurança dos cidadãos, vemos uma inversão da reta ordem. Os corpos intermediários, aqui representados pelas agências e pelos próprios servidores públicos, são enfraquecidos, e o bem da cidade cede lugar à disputa pelo poder. A incapacidade de um legislativo em garantir verbas, por mais que haja pontos de discordância sobre a imigração, é uma falha de responsabilidade primária. A segurança nacional não é uma moeda de troca, e os trabalhadores do DHS não são peões em um jogo político.
O projeto de lei bipartidário que já financiaria outras partes do DHS, aprovado no Senado, mas parado na Câmara por discordâncias, é prova de que a resolução é possível, mas a vontade política, emperrada. A solução não reside em medidas provisórias nem em alertas histéricos que manipulam a opinião pública, mas na honestidade e laboriosidade de se construir consensos para assegurar a continuidade dos serviços públicos essenciais. A virtude da justiça exige que os funcionários recebam seu salário e que os cidadãos tenham sua segurança garantida. A responsabilidade dos legisladores é inadiável.
A verdadeira segurança de uma nação não reside apenas em suas fronteiras ou em seu aparato repressivo, mas na integridade e na operosidade daqueles que a governam.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.