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Desordem Global: Sanções, Soberania e Má Governança

A desordem global expõe sofrimento em Gaza, Venezuela e Cuba. Analisamos as sanções externas e a má governança interna como causas da crise, defendendo a responsabilização múltipla.

🟢 Análise

A paisagem do mundo, rasgada por conflitos, fome e desalojamento, apresenta-se hoje como uma ferida aberta, supurando o sofrimento de milhões. Em Gaza, na Venezuela, em Cuba, no Irã, o que se vê são vidas esmagadas sob o peso de estratégias geopolíticas e de dramas internos. Crianças congelam em campos de refugiados, escolas e hospitais se convertem em ruínas, e economias inteiras se desintegram. Tais imagens clamam por um diagnóstico que, para ser justo, deve ser também veraz, fugindo das simplificações convenientes para mentes preguiçosas ou intencionadas.

É inegável, e os fatos demonstram, que as sanções econômicas, os bloqueios financeiros e as intervenções militares de grandes potências, notadamente dos Estados Unidos e seus aliados, impõem um custo humano brutal. A Venezuela, ao perder 75% de sua economia e testemunhar a emigração de milhões, e Cuba, com décadas de embargo que resultam em perdas bilionárias e escassez, são testemunhos vivos de como a pressão externa pode sufocar uma nação. Relatórios da ONU corroboram a devastação, apontando para dezenas de milhares de mortes atribuídas indiretamente a estas medidas, além do que a Relatora Especial Francesca Albanese descreve como “castigo coletivo” nos territórios palestinos. Tal instrumentalização do sofrimento para fins políticos, ao bloquear ajuda humanitária ou usar dados desatualizados para bombardear civis, é um crime contra a dignidade humana, que a Igreja, à luz da Doutrina Social, condena veementemente. A soberania das nações, assim como a vida de seus povos, merece respeito.

No entanto, a honestidade intelectual nos impele a olhar para além da narrativa unilateral. Reduzir a complexa “desordem global” a uma única causa – a agressão externa – é flertar com um reducionismo que, por sua vez, se torna ideológico. São Tomás de Aquino nos ensina que, para julgar retamente, é preciso buscar a multiplicidade de causas e a ordem dos bens envolvidos. Assim, não podemos ignorar a responsabilidade dos próprios governos na gestão de seus destinos. A má governança, a corrupção endêmica, a hipertrofia estatal em detrimento da iniciativa privada, e as escolhas políticas autoritárias que precederam ou coexistiram com as sanções em lugares como Venezuela e Cuba, não podem ser convenientemente apagadas do quadro.

Esses regimes, muitas vezes, usam a narrativa da “agressão imperialista” para desviar a atenção de suas próprias falhas internas, para reprimir a dissidência e para evitar as reformas necessárias que poderiam aliviar o sofrimento de seus povos. Ao fazê-lo, exercem sua própria forma de estatolatria, sufocando a liberdade ordenada do povo em nome de um Estado que se torna fim em si mesmo, tal como Pio XI criticou. O povo, como ensinou Pio XII, não é uma massa passiva a ser instrumentalizada, mas uma comunidade viva de famílias e corpos intermediários, cujos direitos e deveres intrínsecos não podem ser negados, seja por potências estrangeiras, seja pelos próprios governantes. A verdadeira justiça exige que a responsabilidade seja atribuída onde ela de fato reside, em todas as suas vertentes.

A busca por uma “nova ordem internacional” – um anseio legítimo de muitos líderes globais – jamais prosperará se fundamentada em uma leitura enviesada da realidade. Não se trata de trocar uma hegemonia por outra, nem de justificar autoritarismos internos em nome de uma falsa autodeterminação. A justiça nas relações entre as nações, a veracidade na avaliação dos fatos e a humildade diante da complexidade humana são os pilares indispensáveis. Uma ordem verdadeiramente nova, para ser justa e duradoura, deve promover a paz real, que não é apenas a ausência de guerra, mas a tranquilidade da ordem, e essa ordem só é possível quando se reconhece a dignidade da pessoa humana e suas legítimas aspirações, tanto frente ao estrangeiro quanto ao próprio governo.

A verdadeira vocação do estadista é construir a paz, não a alimentar com uma guerra de narrativas. A retidão moral nos exige a coragem de enxergar as duas faces da moeda, reconhecendo que a desordem do mundo não tem uma única fonte, mas emerge da ferida complexa da injustiça em suas múltiplas manifestações.

Não há paz sem verdade, e a verdade plena não tolera meias-culpas.

Fonte original: GGN

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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