O palco global, hoje, não é de diplomatas em salões polidos, mas de ruínas fumegantes onde milhões de inocentes pagam com a vida por jogos de poder travados em nome de causas pretensamente justas. A arquitetura da desordem se revela em cada economia estrangulada, em cada êxodo de deserdados e no eco distante de bombas sobre escolas.
A ficha factual que temos diante de nós é um atestado cru da devastação. Economias em colapso como a venezuelana, com 75% de retração e um êxodo de quase oito milhões de pessoas, mostram a escala da calamidade. Cuba, há mais de seis décadas sob um embargo unilateral, contabiliza perdas bilionárias. Em Gaza, a ofensiva militar já ceifou dezenas de milhares de vidas, e o frio mata crianças palestinas enquanto a ajuda humanitária é bloqueada. No Irã, ataques aéreos reduziram hospitais e escolas a escombros, com a tragédia de Minab, onde 175 pessoas, a maioria crianças, morreram em uma escola bombardeada com base em informações desatualizadas. Tais atos, impostos por nações poderosas, são uma ofensa à justiça mais basilar, que exige o respeito à soberania e proíbe o castigo coletivo de povos inteiros como mera ferramenta geopolítica.
Contudo, o olhar católico sobre a realidade, nutrido pela clareza tomista, recusa a conveniência de uma causalidade única. A veracidade nos impõe questionar se a ruína de uma nação é apenas fruto da agressão externa. Seria intelectualmente honesto ignorar a má governança, a corrupção endêmica, as políticas econômicas falhas e o autoritarismo que frequentemente preexistem ou exacerbam os efeitos de qualquer bloqueio? Onde está a responsabilidade de regimes que, sob a bandeira da “resistência ao imperialismo”, sufocam as liberdades de seu próprio povo e gerenciam a penúria com mão de ferro?
A Doutrina Social da Igreja, em especial o que Pio XII alertou sobre a distinção entre povo e massa, nos lembra que o verdadeiro bem de uma nação reside na vitalidade de suas comunidades e famílias, e não na capacidade de suas elites (sejam elas externas ou internas) de instrumentalizar o sofrimento para fins geopolíticos. A subsidiariedade exige que as soluções para os problemas nacionais emerjam da base social, e não de imposições, seja de Washington ou de Teerã. A retórica de uma “nova ordem internacional” ou de governos “progressistas” que ecoou em Barcelona, como vimos nos fatos, deve ser posta sob o mesmo crivo crítico: há neles a tentação de uma nova estatolatria ou de uma nova hegemonia, disfarçada de libertação, mas que ignora a liberdade intrínseca da pessoa e das comunidades?
O quadro que se desenha, pois, não é o de vilões e vítimas em preto e branco, mas de uma complexa teia de irresponsabilidades. Há a injustiça manifesta de potências que se arrogam o direito de intervir e punir coletivamente, causando mortes e miséria incalculáveis. Mas há também a injustiça dos que, no interior das fronteiras, exploram a narrativa da vitimização externa para calar a dissidência, justificar a corrupção e perpetuar um modelo de governança que esmaga a dignidade da pessoa humana. Não se trata de escolher um lado nessa dialética viciosa, mas de afirmar a primazia da lei moral sobre todas as ambições.
A verdadeira paz global, portanto, não advirá da mera inversão de poderes ou da substituição de um hegemônico por outro, mas da honestidade intelectual de aceitar a responsabilidade em todas as frentes, da reconstrução da confiança e de um respeito mútuo que reconheça a casa de cada povo como um santuário de sua história e dignidade, onde a vida floresça sem a sombra de sanções ou tiranias internas.
Fonte original: GGN
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.