A África do Sul, berço de uma das mais emblemáticas lutas por justiça do século XX, encontra-se hoje num tribunal moral mais complexo do que os assentos do Tribunal Internacional de Justiça. O caso em questão é a postura do Aliança Democrática (DA), partido oposicionista, diante da calamidade humanitária em Gaza. No palco desse drama, o ativista Nigel Branken confrontou Helen Zille, líder do DA, expondo uma ferida que não cicatriza fácil: a dissonância entre a memória de um passado de opressão e a (suposta) indiferença a um presente de sangue. Zille, em resposta, afirmou que o partido “acompanha com atenção” e que sua prioridade é a “harmonia entre os cidadãos sul-africanos”, embora não endosse formalmente a acusação de genocídio contra Israel, ao mesmo tempo em que saúda as medidas cautelares do TIJ. Uma ginástica retórica que não aguenta o peso da realidade.
A preocupação legítima que emerge é a da coerência moral. Como uma nação que, por seu próprio governo, moveu uma ação no TIJ acusando Israel de genocídio — e obteve a declaração de “plausibilidade” e a ordem de medidas cautelares — pode ter uma de suas principais forças políticas a recusar o endosso à premissa que fundou tal intervenção? Ex-membros do DA, como Phumzile Van Damme, não hesitaram em classificar a postura como “hipócrita”. Não se trata de endossar a retórica inflamada de “supremacia branca” ou de aceitar números não verificados como o de 73 mil civis mortos, mas de enfrentar o núcleo duro da questão: a exigência de um juízo moral firme diante de “graves violações de direitos humanas”, como as documentadas por Anistia Internacional e Human Rights Watch.
Aqui, o Magistério da Igreja, em sua doutrina sobre a ordem moral pública, oferece a lente. Pio XII, em seus ensinamentos, distinguia entre “povo” e “massa”, alertando para os riscos da passividade e da ausência de consciência moral coletiva. Um partido que aspira a governar não pode reduzir a política a um mero cálculo de conveniências eleitorais, onde a “harmonia interna” é buscada à custa da veracidade e da justiça no cenário externo. A verdadeira harmonia, ensina a Doutrina Social, brota da ordem, e a ordem pressupõe o reconhecimento da verdade e a aplicação da justiça sem distinção de pesos e medidas.
A sanidade, por vezes, é mais rara que a inteligência. Chesterton, com sua argúcia para os paradoxos modernos, decerto apontaria a loucura lógica em saudar as medidas cautelares de um tribunal (que visa evitar mais mortes e garantir ajuda humanitária) enquanto se recusa a reconhecer a gravidade da acusação (genocídio plausível) que levou a tais medidas. É como querer colher o fruto sem reconhecer a árvore. A prioridade do DA de “promover a harmonia entre os cidadãos sul-africanos” não pode servir de biombo para uma inação moral diante do sofrimento alheio, especialmente quando esse sofrimento remete a cicatrizes tão presentes na própria história sul-africana. A justiça não se fragmenta em fronteiras.
O que se exige do DA não é a adesão a uma ideologia, mas a coerência com os princípios de justiça que, supostamente, formam o pilar de qualquer sociedade livre e ética. Negar-se a dar nome a uma realidade tão dolorosa, confirmada pela plausibilidade de um tribunal internacional, não é prudência política; é uma falha em reconhecer a gravidade de uma situação que clama por condenação. O “acompanhamento atento” se torna, nesse contexto, uma forma de fuga, uma diluição da responsabilidade moral.
A bússola moral, para uma nação forjada na luta contra a injustiça, não pode ser mero ornamento de discurso. Deve ser um instrumento de navegação que aponta, com veracidade, para a defesa da dignidade da pessoa humana, mesmo quando o caminho exige coragem e assume custos políticos. É nesse alinhamento entre a memória histórica, a doutrina da justiça e a verdade do presente que se edifica a verdadeira autoridade moral de um partido.
Fonte original: O Cafezinho
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.