A figura que emerge no cenário eleitoral brasileiro, prometendo pacificação e um bálsamo para as feridas da polarização, traz consigo um paradoxo que exige clareza doutrinária antes de qualquer aplauso. Augusto Cury, psiquiatra e autor de milhões de exemplares, entra na arena política com o propósito declarado de ser o “porta-voz da pacificação nacional” e um “colecionador de amigos”, almejando uma “mente capitalista com coração social”. É um convite à esperança, que, no entanto, deve ser temperado pela frieza do intelecto e pela verificação de suas bases no terreno da realidade política.
O diagnóstico de Cury sobre o “adoecimento emocional” do Brasil e a prevalência de “projetos de poder” sobre o “Projeto Brasil” ressoa com uma preocupação legítima. Ninguém pode negar o peso do personalismo e da retórica empolada que muitas vezes sufoca o debate sério. Contudo, suas propostas de remédio, ao invés de curar, parecem correr o risco de realinhar as tensões e, talvez, gerar novas enfermidades institucionais. A visão de um presidente que governa por quatro anos e “vai embora para nunca mais voltar”, por exemplo, pode soar desprendida, mas levanta uma grave questão sobre a continuidade institucional e a responsabilidade de longo prazo que um chefe de Estado deve encarnar.
As reformas propostas para o Supremo Tribunal Federal são um exemplo pungente desse risco. O fim da vitaliciedade, a imposição de idade mínima, a mudança na composição e, sobretudo, a delegação da escolha de seus ministros a “associações dos magistrados, dos promotores e a OAB” são alterações que tocam o cerne da separação de poderes. Embora a crítica ao “superpoder” do STF seja compreensível e, em certa medida, necessária para reequilibrar o jogo institucional, a solução não pode ser a entrega da independência judiciária a corporações. São Tomás de Aquino nos ensina que o poder deve ser ordenado para o bem comum, e o Papa Pio XI adverte contra a estatolatria, mas também contra a atomização da autoridade em favor de interesses particulares, por mais bem-intencionados que sejam. A liberdade ordenada exige que o Judiciário seja livre de pressões, não apenas do Executivo, mas de quaisquer grupos que possam exercer influência indevida, inclusive os que ele mesmo representa.
No delicado tema da anistia aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro e a consideração de um salvo-conduto para o ex-presidente Jair Bolsonaro, a retórica da “pacificação” novamente se choca com a virtude da justiça. A pacificação genuína não se constrói sobre a omissão ou a conveniência, mas sobre a verdade e a punição justa daqueles que lesaram a ordem pública e a estabilidade democrática. Alegar “não ter um juízo de valor” ou depender de “segurança jurídica” para tomar uma decisão de tamanha relevância moral e política revela uma prudência que, por excesso de cautela, pode beirar a irresponsabilidade, gerando um precedente perigoso de impunidade. O mesmo vale para as ambiciosas propostas econômicas de redução drástica de juros e atração de fundos soberanos: sem um plano fiscal robusto e uma análise minuciosa da complexidade econômica, correm o risco de se tornarem meros sonhos de verão.
O que se desenha, portanto, é a figura de um intelectual que, com seu carisma e boa intenção, tenta aplicar uma lente psicoterapêutica à política, simplificando os conflitos ideológicos a meros “adoecimentos emocionais” ou “lutas de ego”. É aqui que a sanidade chestertoniana nos adverte contra a “loucura lógica das ideologias”, que buscam reduzir a complexa tapeçaria da realidade a um esquema fácil de decifrar. O terreno de uma nação não é uma página em branco onde se pode desenhar uma utopia de gabinete; é uma terra viva, com raízes históricas, solo fértil para virtudes e vícios, e que exige um cultivo paciente, orgânico e profundamente enraizado em princípios, e não apenas em diagnósticos superficiais ou promessas de cura milagrosa.
A verdadeira veracidade na política exige que se reconheça a natureza dos conflitos e a complexidade das instituições. A pacificação não virá de um “não superpresidente” ou de uma redução do Judiciário à tutela de associações, mas da afirmação de uma justiça clara, de uma ordem institucional que respeite a distinção entre os poderes e de uma liderança que, longe de fugir do embate ideológico legítimo, o qualifique e o eleve. O que falta, em suas propostas, não é coração social, mas a firmeza de princípios que enxergam a nação como um corpo místico e social, cuja saúde exige mais do que a simples administração de egos.
Não basta desejar a pacificação; é preciso construir as pontes com os materiais certos e sobre fundamentos sólidos.
Fonte original: Correio Braziliense
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