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Paz Total na Colômbia: Violência Cresce Sob o Ideal de Petro

O plano de 'paz total' de Petro na Colômbia paradoxalmente intensifica a violência. Ataques, homicídios e sequestros crescem, questionando a responsabilidade do Estado e a urgência da ordem pública.

🟢 Análise

A promessa de paz, por vezes, engendra a própria guerra que se pretendia enterrar, e a Colômbia de Gustavo Petro vive hoje este paradoxo cruel. A ideia de uma “paz total”, ambiciosa em seu escopo de ir além do combate armado para abraçar o desenvolvimento agrário e a superação de décadas de conflito, soa como um ideal digno. Entretanto, a realidade concreta que se impõe após três anos de governo e negociações com grupos armados – o Estado-Maior de Blocos e Frente (EMBF) e o Exército de Libertação Nacional (ELN) – é a de um recrudescimento da violência, com ataques brutais contra civis e militares, aumento de homicídios e sequestros, e uma sensação generalizada de insegurança que corrói a vida pública.

Não se pode ignorar a complexidade da Colômbia, um país marcado por um histórico de conflito armado, narcotráfico e profundas desigualdades. A expectativa de que um plano de pacificação possa transformar décadas de inércia em poucos anos é, de fato, irrealista e desconsidera a agência perversa de grupos que, por sua própria natureza, dependem da violência e do crime organizado para subsistir. É legítimo apontar que a persistência da violência pode ser interpretada como a recalcitrância desses grupos em abandonar atividades lucrativas, e não apenas como um “fracasso” intrínseco da oferta de paz. A tarefa de construir a paz, nesses termos, é um projeto de gerações, que exige mais do que meros acordos.

Todavia, a justiça não pode ser adiada em nome de um futuro incerto. A primeira e mais fundamental responsabilidade do Estado, ancorada na Doutrina Social da Igreja, é garantir a ordem pública e proteger a vida e a integridade de seus cidadãos. Quando os dados revelam um aumento de 3,7% nos homicídios dolosos e uma triplicação nos sequestros em 2025 em comparação com 2022, quando bombas matam 14 pessoas e ferem outras 38 em Cauca, e quando negociações são suspensas pela persistência de ataques contra civis, não se pode relativizar a urgência do problema com a abstração do “longo prazo”. O povo, e não uma massa amorfa ou um conjunto de interesses partidários, é o objeto da solicitude política, e a este povo deve-se a segurança básica.

A proposta de “paz total”, ao negligenciar a firmeza necessária para impor a ordem, parece ter confundido paciência com passividade. A liberdade ordenada, como ensinou Leão XIII, é um bem que exige a capacidade estatal de reprimir o mal e garantir que a sociedade possa desenvolver-se sem o jugo da criminalidade organizada. A busca por desenvolvimento agrário e social, pilares essenciais para a paz duradoura, torna-se uma quimera se o próprio solo onde tais sementes seriam plantadas está ensopado de sangue e temor. A sanidade, como diria Chesterton, exige que não se aceite a loucura lógica de que mais violência hoje é o caminho para menos violência amanhã.

O governo colombiano, com sua alta taxa de desaprovação e a dificuldade em obter adesão de grupos como o Clã do Golfo, enfrenta o dilema de manter o ideal de “paz total” sem que este se converta em uma justificativa para a desordem. A veracidade impõe o reconhecimento de que, se as ferramentas escolhidas para alcançar a paz resultam em um incremento da violência, elas devem ser reavaliadas com urgência. Não se trata de abandonar a busca por soluções duradouras para as causas da violência, mas de reafirmar que a proteção da vida humana não é um objetivo secundário, mas o alicerce sem o qual nenhum projeto de sociedade justa pode prosperar.

A Colômbia precisa de um juízo reto que diferencie a generosidade da intenção da eficácia dos meios. Um plano que visa à pacificação não pode ser considerado um sucesso enquanto a vida comum dos cidadãos se deteriora sob o peso da barbárie. O dever do Estado é defender o povo que governa, não apenas prometer-lhe um futuro mais ameno. A paz, para ser verdadeira, deve começar pela justiça de resguardar o que há de mais precioso: a vida dos inocentes.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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