A Colômbia, um país que por décadas carregou a cicatriz de um conflito que parecia interminável, observa agora sua vida comum ser novamente cindida pelo estrondo de bombas e pela sombra dos sequestros. O ambicioso plano de “Paz Total” do presidente Gustavo Petro, concebido como a grande virada histórica, paradoxalmente, tem semeado um cenário de desordem que exige um juízo reto. A proposta de estender a mão a todos os grupos armados — das Farc dissidentes do EMBF ao Clã do Golfo e ao ELN — confrontou-se brutalmente com a persistência da maldade concreta, deixando um rastro de mortos, feridos e uma população descrente em sua própria segurança.
É inegável que Gustavo Petro herdou uma realidade de instabilidade crônica, onde os acordos de paz anteriores, como o de 2016 com as Farc, deixaram brechas para a proliferação de dissidências e a continuidade de economias ilegais. Julgar um processo de paz em apenas três anos pode parecer, à primeira vista, um exercício de pressa histórica. Contudo, a estabilidade de uma nação não pode ser refém de uma espera indefinida enquanto a vida e a dignidade de seus cidadãos são violadas diariamente. A escalada de homicídios e a triplicação de sequestros em 2025, comparado ao início do mandato, não são meros dados estatísticos; são faces da injustiça que gritam por uma resposta imediata e eficaz do Estado.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente pelos ensinamentos de Pio XII, nos lembra que o Estado tem como sua função primária assegurar a ordem moral pública e a proteção dos cidadãos. Quando essa função falha, o “povo” se vê reduzido a uma “massa” desprotegida, à mercê da violência e do arbítrio dos grupos criminosos. Uma “paz total” que, em nome de um ideal abstrato, relativiza a gravidade dos crimes e enfraquece a autoridade legítima para coibi-los, não é paz, mas tolerância da desordem. O discernimento político, uma virtude ligada à justiça, impõe a separação entre atores que buscam uma reinserção genuína na vida comum e aqueles que são apenas bandidos que usam a bandeira da negociação para fortalecer suas posições. A suspensão das conversas com o EMBF e o fim do cessar-fogo com o ELN, após violentos ataques, embora tardios, são um reconhecimento doloroso dessa distinção fundamental.
A onda de violência, com atentados em Cáli e a bomba em Cauca que tirou a vida de 14 pessoas inocentes, desmascara a ilusão de que a mera intenção de diálogo pode deter quem se alimenta do caos. A desaprovação de 57% do presidente, segundo pesquisas, reflete a legítima preocupação de um povo que anseia por segurança e vê a promessa de paz desvanecer. Nem a maioria conquistada no Senado, nem os acordos de cooperação com os EUA no combate ao narcotráfico, podem substituir a firmeza interna de um governo em proteger seus próprios. A realeza social de Cristo, lembrada por Pio XI, implica a exigência de que os governantes submetam suas políticas à ordem moral, assegurando que o poder sirva à vida e à justiça.
A Colômbia não precisa de uma “paz total” que abdique da justiça, mas de uma paz justa, forjada com fortaleza, que não hesite em usar a força legítima contra aqueles que atacam a vida e a liberdade. A autoridade não se ganha pela capitulação, mas pela defesa intransigente dos mais vulneráveis e pela restauração da ordem. Somente assim o clamor por segurança, que ecoa nas ruas e nos campos colombianos, poderá encontrar uma resposta à altura da dignidade de um povo que não quer mais viver sob o jugo do medo. A verdadeira pacificação começa não na negociação sem limites, mas na defesa inegociável da vida humana e da lei natural.
O edifício da paz, para ser duradouro, deve ser erguido sobre os pilares da justiça e da autoridade firme, e não sobre a areia movediça de promessas abstratas que ignoram a persistência do mal.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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