A cena política brasileira, em sua intrincada tessitura, oferece um espetáculo peculiar: o palco da representação, não raro, é dominado por elencos que se repetem. Sobrenomes ecoam em salões legislativos e gabinetes executivos, como um eco familiar que atravessa gerações. No Amazonas, como em tantos outros cantos do país, a continuidade de clãs políticos é uma realidade visível e, para muitos, perturbadora. Não se trata de negar a legitimidade formal do voto, mas de perscrutar o que essa repetição significa para a saúde do corpo político e para a genuína representação dos cidadãos.
Os fatos são incontornáveis. Grupos familiares mantêm influência em diferentes esferas e regiões, com nomes conhecidos se sucedendo em cargos de poder. Da prefeitura de Coari à bancada federal, a sucessão familiar opera dentro da lei, respeitando os limites da inelegibilidade reflexa. Contudo, essa aparente normalidade legal encobre uma preocupação legítima: a dificuldade de renovação política. Cientistas políticos, com razão, alertam que tal prática tende a criar oligarquias localizadas, que qualificam de “filhotismo” ou “poder quase semifeudal”, dificultando o acesso de novos talentos e ideias ao processo democrático e impedindo que vozes importantes da sociedade encontrem espaço no debate público.
Ora, é preciso reconhecer que, para o eleitor, a familiaridade de um sobrenome pode, paradoxalmente, ser um atrativo. Em meio à incerteza e à volatilidade, um nome conhecido pode evocar uma sensação de estabilidade, experiência acumulada e previsibilidade. É compreensível que, na busca por alguma âncora, o cidadão se incline para quem já conhece, talvez associando o patriarca a algum benefício ou política pública. Mas aqui reside um paradoxo: essa busca por estabilidade, se não for temperada por um discernimento mais profundo, pode pavimentar o caminho para a estagnação. A familiaridade, quando cega ao mérito e à proposta, transforma a política em herança, não em serviço.
A Doutrina Social da Igreja, alicerçada em São Tomás de Aquino, oferece uma bússola para este labirinto. Pio XII, em sua distinção entre “povo” e “massa”, já nos advertia para o risco de uma sociedade onde a participação ativa e consciente do cidadão é substituída pela passividade de uma massa que segue o impulso do momento ou a força do nome. O “povo” é uma comunidade orgânica de pessoas, unidas pela busca do bem comum, capazes de discernir e agir por princípios. A “massa”, ao contrário, é um amontoado disforme, facilmente manipulável e suscetível à demagogia ou ao culto de personalidades e clãs. A repetição familiar na política corre o risco de converter o povo em massa, onde a eleição se dá menos pela análise de propostas e mais pelo reconhecimento automático de um rótulo.
A primazia da justiça exige que o acesso à representação política seja equitativo. Isso não significa proibir a ascensão de quem tem um sobrenome conhecido, mas garantir que o sistema não crie barreiras intransponíveis para quem não o tem. A política é um serviço à res publica, não um patrimônio familiar a ser transmitido de geração em geração. Os partidos políticos, que deveriam ser autênticos “corpos intermediários” (como ensinava Pio XI), verdadeiras escolas de formação e seleção de lideranças, acabam por se tornar meros cartórios para a chancela de nomes familiares, falhando em sua responsabilidade de cultivar novos talentos e ideias. A laboriosidade de buscar e fomentar novos quadros é substituída pela conveniência do nome já feito.
A verdadeira renovação não é uma simples troca de figuras, nem uma condenação sumária de toda e qualquer continuidade. É, antes, uma restauração do propósito da vida pública, que deve ser governada pela justiça e pela responsabilidade. Aos partidos, cabe o dever de serem celeiros de virtudes cívicas, formando líderes pela competência e pelo compromisso com o bem da cidade, não pela linha genealógica. Ao eleitor, por sua vez, exige-se uma maior laboriosidade cívica: a de ir além do nome familiar, perscrutar as propostas, exigir transparência e buscar aqueles que, de fato, encarnam a dignidade do serviço público. A consolidação da ordem democrática e dos valores que lhe dão sentido dependerá de nossa capacidade de distinguir o genuíno serviço da mera perpetuação de poder.
A solidez de uma república se mede não pela familiaridade dos nomes que a regem, mas pela fecundidade do solo cívico em que florescem homens e mulheres dignos de governar, escolhidos não pela herança, mas pelo mérito do serviço e pelo amor à vida comum.
Fonte original: Em Tempo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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