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Ocupação da Cisjordânia: Assentamentos, Segurança e a Paz Negada

Na Cisjordânia, a expansão de assentamentos e a ocupação israelense sufocam a paz e a dignidade palestina. Analisamos como a segurança de um lado é erguida sobre a injustiça do outro.

🟢 Análise

A Cisjordânia, território que deveria ser a fundação de uma esperança, converte-se dia após dia em um canteiro de obras da injustiça, onde a segurança de um lado é erigida sobre a demolição da dignidade do outro. Não se trata de um conflito abstrato, mas de incursões armadas, expansão de colônias e a expulsão silenciosa de famílias inteiras, atos que desafiam não apenas o direito internacional, mas a própria lei moral inscrita na consciência humana. A cada nova “legalização” de assentamentos, a cada caravana que se instala sobre a terra alheia, a ideia de um Estado palestino não é apenas minada; ela é desfigurada, roubada de seu solo e de sua alma.

Os fatos são claros, dolorosos. Desde outubro de 2023, mais de 1.200 palestinos foram mortos na Cisjordânia, enquanto colonos, frequentemente com cobertura militar, avançam sobre aldeias e expulsam beduínos de suas terras ancestrais. A decisão “quase secreta” do gabinete de Benjamin Netanyahu de legalizar mais 34 colônias – somando 102 assentamentos apenas em sua atual gestão – é um esgar no tecido de qualquer pretensão de paz. Ministros como Bezalel Smotrich, ao parabenizar os colonos por “destruir completamente a ideia de um Estado palestino”, revelam a intenção explícita de uma estatolatria expansionista que nega a legítima existência de um povo e a propriedade com função social, um princípio tão caro a Leão XIII.

É preciso, contudo, ter a honestidade intelectual de reconhecer a profunda preocupação com a segurança que assola Israel, especialmente após os ataques de outubro de 2023. Para muitos israelenses, a presença e o controle na Cisjordânia são percebidos como um imperativo de segurança nacional existencial, uma barreira contra ameaças reais e a persistência de grupos armados. A ausência de um parceiro palestino unificado e com um mandato claro para negociar um acordo de paz, que ofereça garantias de segurança críveis, é uma complexidade que não pode ser ignorada. Mas o verdadeiro teste da fortaleza moral de uma nação reside em como ela responde a suas dores e medos: se pela justiça ou pela prepotência.

É aqui que reside o paradoxo, tão bem observado por um Chesterton: a tentativa de construir a paz e a segurança desconstruindo a paz e a segurança do próximo. Uma segurança que se baseia na contínua despossessão, na violência e na violação de direitos fundamentais, está fadada a ser frágil e ilusória. Pio XI, em sua crítica à estatolatria e na defesa da justiça social, nos ensina que a ordem duradoura não emerge do poder bruto de um Estado que esmaga os corpos vivos da sociedade, mas do reconhecimento dos direitos naturais e da aplicação do princípio da subsidiariedade, que fortalece as comunidades em sua própria esfera de ação. A ocupação de um território e a expansão unilateral de assentamentos são a negação prática desses princípios.

Ainda que a liderança palestina possa ser fragmentada ou falha, tal deficiência não valida a ocupação ou a anexação. O direito de um povo à autodeterminação e a viver em suas terras não pode ser condicionado à perfeição de seus representantes. A contínua expansão das colônias e a violência impune dos colonos representam não apenas uma vergonha moral, mas, como bem alertam ex-chefes da segurança israelense, um “golpe estratégico fatal” para a própria segurança de Israel. Pois a paz verdadeira não é a ausência de guerra por dominação, mas a tranquilidade da ordem, a qual só pode ser alcançada quando cada homem e cada povo têm o que lhes é devido.

A lição que ressalta da Cisjordânia é que não se constrói um futuro sólido sobre escombros alheios. A justiça não pode ser um capricho, uma concessão feita por conveniência, mas o alicerce irrenunciável de qualquer ordem que se pretenda humana e duradoura. Ignorar a verdade sobre a ocupação e a despossessão, por mais incômoda que seja, é condenar ambos os povos a um ciclo infindável de violência e ressentimento.

A paz, afinal, não é um armistício tático, mas uma edificação moral, erguida tijolo a tijolo sobre a firmeza da justiça e a coragem da verdade.

Fonte original: Correio Braziliense

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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