Quando um estudioso, agraciado com prêmios e cátedras por um governo estrangeiro, apresenta um tratado sobre a governança daquele país, a primeira questão que se impõe não é sobre a profundidade de seus dados, mas sobre a angulação de seu olhar. A intenção de decifrar os complexos mecanismos do poder chinês, de ir além das simplificações ocidentais, é digna. A Doutrina Social da Igreja sempre incentivou a compreensão das diferentes culturas e dos caminhos que os povos buscam para sua organização social. É inegável a notável ascensão econômica da China e a aparente coesão de seu sistema, elementos que muitos admiram e buscam compreender em profundidade. No entanto, para o Polemista Católico, a lente da observação jamais pode obscurecer as verdades perenes da lei natural e da dignidade humana, pilares que sustentam a justiça e a reta ordem social.
O professor Evandro Menezes de Carvalho descreve um sistema político chinês como uma síntese de marxismo-leninismo, pensamento dos líderes e a “fina tradição da cultura chinesa”, com Xi Jinping valorizando os estudos confucionistas e exigindo juramento à constituição. É apresentada a ideia de que “o Partido lidera, mas não governa”, atribuindo a governança aos órgãos do Estado, e que a lição a se tirar da China é “confiar no seu povo”. Há, contudo, uma profunda contradição moral entre o discurso e a realidade observável. O Magistério da Igreja, em especial Pio XII, já nos advertiu sobre a diferença crucial entre povo e massa. Um povo é um conjunto de pessoas dotadas de razão e liberdade, conscientes de seus deveres e direitos, participando ativamente da vida pública. Uma massa, por outro lado, é um aglomerado de indivíduos sem vontade própria, facilmente manipulável e instrumentalizado pelo Estado ou por uma facção, mesmo que numerosa. A proliferação de um aparato de vigilância onipresente, a censura rigorosa e a ausência de mecanismos democráticos de participação popular direta e de liberdade de expressão irrestrita sugerem que o controle total sobre a massa, e não a confiança no povo, é o motor real de uma liderança que se autojustifica.
Não se trata de um mero “mal-entendido” ocidental, mas de um problema de veracidade fundamental. A dignidade da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, exige que ela seja sujeito, e não objeto, da vida social. Essa dignidade é universal, transcende particularidades culturais e modelos políticos. Por mais que a “tradição da cultura chinesa” possa ter elementos morais válidos, ela não pode ser usada como véu para encobrir a supressão da liberdade de consciência, de expressão e de associação, nem para justificar a perseguição de minorias étnicas e religiosas, como os uigures, ou a repressão em Hong Kong. Tais atos, amplamente documentados por fontes independentes, não são “bobagens” ou “viés”, mas violações gritantes da justiça e do direito natural.
A “campanha contra a corrupção”, embora legítima em seu propósito de coibir o “Guanxi” e a “carteirada”, levanta sérias questões quando observada através da lente da justiça processual. Em um sistema de partido único, onde os processos de acusação e julgamento estão intrinsecamente ligados às disputas internas de poder e à consolidação da autoridade do líder, sem a fiscalização de um judiciário independente ou da mídia livre, o que se apresenta como combate à corrupção pode facilmente descambar para purgas políticas. O ideal confucionista de moralidade do “ser humano nobre” é subvertido quando a “vergonha de infringir a lei” é imposta pelo medo e não pela adesão livre à virtude, em um paradoxo que Chesterton apontaria como a sanidade virando loucura lógica.
A aspiração de “unificação do país” até 2049, incluindo a questão de Taiwan, embora apresentada como um projeto nacional legítimo, não pode negligenciar as legítimas aspirações de autodeterminação de populações específicas, nem a soberania de nações reconhecidas, caso se concretize por meios coercitivos. O argumento de que a China “não se preocupa diretamente” em inspirar outros países esbarra na realidade de sua intensa diplomacia e proselitismo de seu “modelo de governança” em foros internacionais, buscando legitimar um caminho de desenvolvimento que, para muitos, prioriza a estabilidade e o crescimento econômico à custa das liberdades individuais. A verdadeira ordem justa, o bem da cidade, não se constrói em assimetrias de poder que silenciam vozes críticas, mas na participação real e na garantia de direitos fundamentais para todos.
A verdadeira força de uma nação não se mede apenas pelo seu progresso material ou pela coesão de sua estrutura de poder, mas pela liberdade e dignidade com que trata cada um de seus filhos, e pela veracidade com que se apresenta ao mundo e a si mesma.
Fonte original: Revista Fórum
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.