Quando a imagem se sobrepõe à substância, a percepção, por mais difundida que seja, corre o risco de nos guiar por um deserto de miragens. É o que parece ocorrer na América Latina, onde a pesquisa de abril de 2026 indica uma ascensão notável da imagem da China, em contraste com a reputação em declínio dos Estados Unidos e da Europa. Os latino-americanos, em meio a um cenário global que descrevem como “hostil, incerto e menos regulamentado”, parecem buscar novos faróis, e a Ásia, com a China à frente, surge como uma nova promessa.
Os números não mentem sobre a percepção: a China é a única das sete potências listadas a ganhar prestígio desde 2022, ultrapassando os EUA como referência para o desenvolvimento e sendo vista como líder em educação, ciência, tecnologia e inteligência artificial. Enquanto isso, o Ocidente — personificado nos EUA de um Donald Trump amplamente desconfiado, e numa Europa que, embora ainda referência em direitos humanos, perde seu brilho como modelo de integração — vê sua influência esmaecer. É um espelho do desencanto profundo de 78% dos entrevistados, que discordam que o mundo esteja na direção correta. Há, de fato, uma legítima preocupação com a crescente volatilidade global e o enfraquecimento das normas internacionais, que o Ocidente, por suas próprias falhas e intervenções, ajudou a precipitar.
No entanto, por trás do véu das aparências, a melhora da imagem chinesa carrega paradoxos incômodos. A mesma pesquisa que a coloca como referência em tecnologia, também lhe atribui uma pontuação de 4.4 de 10 na “avaliação da democracia no mundo” — um aumento marginal que, no absoluto, mal a tira do patamar de regime autoritário. Essa discrepância expõe uma ironia que Chesterton poderia descrever como a celebração da sanidade alheia como loucura, e vice-versa: a pressa em desdenhar os vícios ocidentais nos leva a obscurecer as sombras de regimes que não partilham os bens essenciais de uma ordem social justa. A percepção de que a China “não é uma ameaça” pode ser, antes de tudo, o resultado de uma menor intervenção militar direta e da ausência de condicionalidades políticas explícitas em seus investimentos, o que se torna um atrativo em um mundo que se cansou da “diplomacia dos valores” ocidental.
Mas essa atratividade esconde uma assimetria de poder perigosa. A China, ao focar massivamente em infraestrutura e comércio sem amarras ideológicas, pode gerar uma dependência econômica que, a longo prazo, limita a autonomia estratégica dos países latino-americanos. Não se trata de uma avaliação profunda dos valores chineses, mas de uma reação a falhas ocidentais, um movimento que a Doutrina Social da Igreja, desde Pio XII, advertiria como a atitude da massa, que se move por impulsos, em contraste com a solidez do povo, que discerne os bens duradouros e a ordem da justiça.
O Ocidente, em crise de reputação e credibilidade, precisa de uma profunda introspecção e um retorno aos seus princípios fundantes, para que possa novamente oferecer um modelo de liberdade ordenada e subsidiariedade, e não apenas de intervenção e condicionalidades. Contudo, a América Latina, ao buscar novas parcerias, deve agir com a veracidade de quem compreende que a dignidade da pessoa humana e a soberania de uma nação não podem ser moeda de troca em um balcão geopolítico. A justa ordem da vida social exige mais do que trocas comerciais ou avanços tecnológicos; ela demanda a fortaleza de manter os olhos fixos nos princípios imutáveis do direito natural, da liberdade e da justiça.
A verdadeira autonomia da América Latina reside em não trocar uma dependência por outra, mas em edificar sua própria casa sobre as rochas da veracidade e da justiça.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.