A estrada, em sua essência, é uma promessa. Uma promessa de conectar lugares e pessoas, de escoar a produção, de facilitar a vida comum. No trecho da BR-242 que corta a Chapada Diamantina, essa promessa se esvai em erosões, asfalto de má qualidade e sinalização precária. O lamento público que ecoa dali, sobre uma via fundamental que se desfaz, contrasta vivamente com a máxima de Washington Luís, de que “governar é construir estradas”. Mais do que um problema de engenharia, a deterioração da infraestrutura revela uma patologia na arte de governar que desvia do serviço público para a contabilidade eleitoral.
Não se trata de negar a complexidade inerente à gestão de um estado como a Bahia, sob o controle do mesmo grupo político por quase duas décadas. Contudo, quando a liberação de recursos para convênios municipais é condicionada para “meses à frente ou após as eleições de outubro”, o que se vê não é um rito burocrático, mas uma manobra. Prefeitos se sentem como quem recebe um presente de Natal em 26 de dezembro, a festa já finda, a necessidade imediata postergada pela conveniência do calendário político. Esse método, que transforma a justa distribuição de verbas em alavanca de barganha eleitoral, contraria os princípios da justiça e da subsidiariedade, que exigem a autonomia dos corpos intermediários e o respeito às necessidades locais sem a imposição centralizadora do favor.
O caso de Banzaê, onde um convênio para creche de 2022 já ostenta um terceiro termo aditivo sem que a obra tenha saído do papel, e com a vigência estendida por mais um ano, é sintoma de uma administração que se perde em promessas e prorrogações. Treze casos similares de convênios com essa quantidade de aditivos sem obra iniciada, mencionados nos bastidores, configuram não apenas ineficiência, mas um desperdício de energia e recursos públicos. Tal prática mina a veracidade da intenção governamental e a confiança cívica, transformando o ato administrativo num simulacro de ação. A contratação de quase R$ 31 milhões para “apoio técnico, operacional e administrativo” por um órgão estadual, sem a devida transparência sobre sua necessidade e aplicação, apenas engrossa a nuvem de desconfiança, levantando a legítima questão sobre a destinação do dinheiro dos contribuintes.
Quando a máquina pública se move para interferir em eleições de entidades de classe, como a tentativa de travar judicialmente a eleição do Sindimed-BA por figuras ligadas à base governista, o limite entre o Estado e o partido se esvai perigosamente. Essa assimetria de poder, que busca dominar as esferas da sociedade civil, é um traço da `estatolatria` que Pio XI já denunciava: a pretensão de que o Estado seja a fonte e o fim de toda a vida social, esmagando as associações livres e a autonomia de seus membros. A vitalidade de uma comunidade reside, em grande parte, na multiplicidade de seus corpos intermediários e na liberdade de sua auto-organização, virtudes que aqui parecem ser vistas como estorvo.
A pesquisa de opinião, com seus números contrastantes – 56% de aprovação geral, mas com a percepção de “caciques da base” de que estariam “inflados”, e a maioria desejando mudança –, não é apenas um retrato estatístico. É o eco de um `povo versus massa`, como advertia Pio XII, onde a genuína vontade popular pode ser obscurecida por narrativas convenientes ou pela inação diante de problemas concretos. A gestão que falha em entregar o básico – estradas seguras, obras essenciais, uso transparente de recursos – e se enreda em disputas menores para manter o controle, perde de vista o horizonte da magnanimidade que se espera de quem governa.
Chesterton, em seu paradoxo sobre a loucura lógica das ideologias, poderia nos recordar que a sanidade reside na adesão ao real, e não nas construções artificiais da propaganda política. O governo, para ser digno, precisa edificar com base na verdade dos fatos e na necessidade dos cidadãos, e não em uma teia de aditivos, promessas postergadas e contratos obscuros. A arte de governar não se mede pela capacidade de prolongar um ciclo político, mas pela solidez dos alicerces que deixa para a vida comum. A estrada que não se constrói, ou que se desfaz, é a imagem mais crua de um dever que se abandona.
Fonte original: Correio
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.