O projeto de “alicerçar” um país, nome grandiloquente que evoca a solidez da pedra fundamental, é um chamado nobre em sua essência. Ninguém em sã consciência negaria a necessidade de bases firmes para a vida em comum, especialmente quando o desejo é fortalecer a participação feminina na política, infundir valores e proteger a infância. É legítima a preocupação com a fragilidade dos laços comunitários e familiares, e a busca por uma educação que não se perca em labirintos ideológicos vazios. Há, de fato, urgência em preencher vazios de sentido e em resistir a correntes que desconstroem o óbvio da vida. Mas o modo de construir um alicerce é tão crucial quanto a intenção de fazê-lo.
Quando a cartilha cor-de-rosa do Projeto Alicerça Brasil emerge, com seu método de “Ver, Refletir, Iluminar e Agir”, e oferece uma visão do mundo através de lentes tão estreitas, a estrutura que se pretende erguer já nasce comprometida. Reduzir as complexas universidades públicas a “ambientes de festas, drogas e doutrinação” não é refletir, nem iluminar; é caricaturar. E caricaturas não são blocos de construção, mas simulacros que distorcem a realidade. A busca por conhecimento e a capacidade de discernimento crítico, pilares da formação integral da pessoa, são aviltadas quando se desqualifica, por conveniência ideológica, instituições fundamentais à produção de ciência e ao pluralismo de ideias. O convite a optar por um curso técnico “livre de ideologias” como única alternativa à universidade pública pode, paradoxalmente, empobrecer a formação cidadã da mulher, limitando seu horizonte de liderança e sua capacidade de enfrentar a complexidade do mundo com a reta razão.
A Doutrina Social da Igreja, ao falar do povo, o distingue da massa. O povo é um corpo vivo, orgânico, composto por cidadãos livres, conscientes e responsáveis, capazes de julgar e decidir com base na verdade. A massa, ao contrário, é um amontoado anônimo, facilmente manipulável por slogans e sentimentos, desprovida de senso crítico. O modelo de “uma mulher inspira 12, que inspiram 144”, que pretende construir uma rede de milhões de ativistas, corre o risco de transformar essa inspiração numa simples propagação de mensagens pré-digeridas, se a formação se baseia na omissão de fatos e na demonização do contraditório. A verdadeira liderança feminina não se constrói na adesão acrítica, mas na autonomia intelectual e moral, na capacidade de discernir a verdade em meio ao ruído ideológico.
Não se trata de negar a existência de problemas ou a influência de certas correntes em ambientes acadêmicos ou em instituições. Mas a humildade intelectual exige que se lide com a realidade tal como ela é, sem reducionismos. A alteração do nome “Conselho Tutelar” para “Semselho Nutelar”, acompanhada de alegações vagas sobre “intervenções indevidas” e “ideologias woke”, sem apresentar provas concretas ou oferecer soluções para os problemas reais desses órgãos, mina a confiança em instituições de proteção infantil que, apesar de suas falhas, são essenciais. Se o intuito é proteger a criança, o caminho não é a descredibilização generalizada, mas a participação virtuosa e a busca por aprimoramentos concretos, com transparência curricular e conselhos escola-família-comunidade que se baseiem em fatos, não em insinuações.
Quanto ao papel da mulher, a Igreja ensina a dignidade igual entre homem e mulher, a complementaridade de papéis e a vocação à liderança em todos os âmbitos da vida, seja no lar, na comunidade ou na política. A fala de uma “alicerçada” que se diz “submissa” ao marido como provedor, mas inteligente e com vontade de aprender para escolher por si mesma, precisa ser compreendida na riqueza da teologia católica do matrimônio, onde a submissão não é servilismo, mas a livre entrega de amor e respeito mútuo em vista da unidade e do bem da família. Um Chesterton diria que a sanidade reside em reconhecer a grandeza da mulher em sua totalidade, com sua inteligência e capacidade de ação no mundo, e não em uma redução ideológica que a limita ou a instrumentaliza. A vocação da mulher à política e à liderança é um desígnio de grandeza, que exige magnanimidade, não um pretexto para uma guerra cultural movida a simplificações.
O verdadeiro alicerce de uma nação e de uma cultura não se ergue sobre a terra movediça da propaganda ou da polarização, mas sobre a rocha firme da veracidade e da justiça. Edificar significa construir com materiais sólidos, com transparência e com a plena consciência de que a política é coisa de gente do bem, sim, mas de gente do bem que ama a verdade acima das conveniências partidárias, que respeita a inteligência do povo e que busca a formação integral de cada cidadã, para que ela possa, de fato, brilhar como uma estrela em um céu de pluralidade e liberdade ordenada.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.