A cartilha cor-de-rosa do Projeto Alicerça Brasil, desdobrada nas mesas de uma sala em Mauá, não é apenas um manual de campanha partidária; é um sintoma da sede por sentido numa sociedade em desordem. O PL Mulher, sob a liderança de Michelle Bolsonaro, mobiliza “alicerçadas” com a missão de serem baluartes do lar e da nação, munindo-as de um roteiro “Ver, Refletir, Iluminar e Agir” para combater aquilo que rotulam como “agenda woke”, feminismo e a suposta doutrinação nas universidades públicas. Há uma aspiração legítima subjacente a este movimento: o desejo de restaurar valores, de defender a família e a vida, e de ver “gente do bem” envolvida na política. É uma reação compreensível à percepção de um mundo que parece ter perdido o seu eixo moral, onde instituições tradicionais são frequentemente postas em xeque.
Contudo, a nobreza da intenção não imuniza a estratégia contra o escrutínio da reta razão e da Doutrina Social da Igreja. O método proposto pela cartilha, ao mesmo tempo em que mimetiza táticas de mobilização outrora associadas à esquerda, como as Comunidades Eclesiais de Base, corre o risco de cair na mesma armadilha da ideologização que pretende combater. Quando se descreve a universidade pública como um mero “ambiente de festas, drogas e doutrinação” e se recomenda o ensino profissionalizante em detrimento do superior para ser “livre de ideologias”, há uma simplificação que beira a desonestidade intelectual. A veracidade exige que se reconheça a complexidade do real, as contribuições inegáveis da academia e a diversidade de pensamento que, apesar de seus desvios, ainda pulsa em muitos espaços educacionais.
A Doutrina Social, em seu ensinamento sobre a subsidiariedade, valoriza e encoraja a ação da sociedade civil e dos corpos intermediários — como a família e as associações locais — na resolução de seus problemas, sem que o Estado ou grandes estruturas monopolizem a iniciativa. O esforço para formar grupos de mães que fiscalizem currículos escolares e para “ocupar” conselhos tutelares e municipais pode ser, em princípio, um exercício salutar dessa subsidiariedade. É a base da democracia: a cidadania ativa na vida pública. Mas essa participação precisa ser guiada pela prudência, que não é mera cautela, mas o reto juízo sobre o que deve ser feito. A prudência exige discernimento, e não a mera replicação de um roteiro que já traz as conclusões prontas.
A dignidade da pessoa humana, homem e mulher, encontra sua plenitude não na submissão unilateral a um modelo pré-fabricado, mas na mútua doação e no respeito à alteridade, dentro da ordem da caridade. Afirmar a feminilidade sem cair nas armadilhas do feminismo radical não significa reduzir a mulher a um papel rígido ou a uma ideia de “submissão” desprovida de sua grandeza integral, tal como ensinada pela Igreja. A esposa e mãe que se descreve como “submissa no sentido dele cuidar de mim” expressa um anseio de segurança, mas a verdadeira complementariedade não anula a inteligência, a autonomia moral ou a capacidade de liderança. O próprio projeto, ao convocar mulheres à ação política, implicitamente reconhece essa capacidade.
Neste cenário de “guerra cultural”, como Chesterton observaria com sua peculiar sanidade, o perigo reside em combater uma loucura lógica por meio de outra. A crítica aos excessos da “agenda woke” é pertinente, mas a resposta não pode ser a criação de um contra-paradoxo igualmente hermético e redutor. A construção de um verdadeiro alicerce para a nação e para o lar exige mais do que meras “microcélulas” de replicação ideológica. Demanda coragem para discernir a verdade do erro em todas as frentes, para abraçar o que é bom e belo em qualquer contexto, e para rejeitar a simplificação, seja ela progressista ou conservadora.
A estratégia de galvanizar o eleitorado feminino contra o que se percebe como “política do mal” tem sua base em anseios genuínos. Mas para edificar uma ordem justa e duradoura, não basta substituir uma doutrinação por outra, por mais bem-intencionada que seja. O compromisso com Deus, família, pátria e liberdade só se sustenta quando assentado na verdade integral e no respeito à liberdade ordenada, que não teme o pensamento crítico, mas o convida à comunhão na busca do bem. O alicerce firme da civilização cristã não é uma cartilha, mas a própria rocha da verdade que liberta e eleva a razão.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.