Atualizando...

Alemanha: Governo Merz Resiste a Eleições, Cresce Crise de Legitimidade

O governo de Friedrich Merz na Alemanha descarta eleições antecipadas apesar da baixa popularidade. Analisamos a tensão entre a estabilidade política e a crise de legitimidade popular do mandato.

🟢 Análise

A arte de governar, quando se faz séria, assemelha-se à edificação de uma boa cidade: exige alicerces firmes, planejamento claro e a adesão de todos os que ali hão de habitar. Mas o que fazer quando a própria fundação treme, e grande parte dos moradores já não crê na solidez das paredes? É esta a questão que paira sobre a Alemanha, onde o primeiro-ministro Friedrich Merz, à frente da coalizão CDU/CSU e SPD, defende a permanência no poder até 2029, a despeito de um clamor popular que aponta para a dissolução do governo.

Merz descarta categoricamente eleições antecipadas ou a formação de um governo minoritário, alegando que um país em campanha eleitoral, no meio de uma “crise econômica dessa magnitude”, seria incapaz de tomar as “decisões necessárias”. Sua declaração, “por favor, que ninguém sonhe com novas eleições”, soa como um apelo à responsabilidade, mas, ao mesmo tempo, revela uma preocupação com a fragilidade do mandato. Passado um ano de gestão, com baixos índices de popularidade, a justificativa de Merz levanta um dilema central para a reta razão política.

A estabilidade, porém, não é a mera permanência no cargo ou a recusa em encarar o veredito popular. Tampouco se confunde com a inércia institucional. Quando 58% dos cidadãos alemães esperam a dissolução de uma coalizão, e apenas 24% acreditam que ela completará seu mandato, a pretensão de governar com autoridade plena entra em xeque. A autoridade, para ser legítima e eficaz, não se sustenta apenas em pergaminhos constitucionais, mas no assentimento, ainda que tácito, daqueles a quem serve. Ignorar essa assimetria de poder entre a prerrogativa constitucional e o anseio popular é subestimar o risco de deslegitimar as próprias instituições.

O argumento de que um país em campanha eleitoral se torna incapaz de tomar decisões cruciais é um pressuposto que merece ser desafiado pela realidade histórica e pela própria natureza da democracia. Se a campanha é um tempo de incerteza, é também um momento de escrutínio, de debate vigoroso e de renovação do mandato popular. Um governo que carece de respaldo popular suficiente pode, paradoxalmente, encontrar-se mais paralisado do que um processo eleitoral. Suas decisões, tomadas sob o manto da impopularidade, são frequentemente percebidas com ceticismo, gerando resistência e minando a confiança necessária para implementar reformas profundas.

Segundo a Doutrina Social da Igreja, a autoridade política, embora necessária para a ordem e o bem da cidade, encontra seu fundamento no povo, não como mera soma de indivíduos, mas como um corpo social vivo, capaz de discernimento e participação. A recusa em consultar o povo, quando este já manifesta clara insatisfação e desconfiança, não é um ato de fortaleza política, mas uma estratégia que, a longo prazo, pode corroer a própria legitimidade da governação. A verdadeira fortaleza política reside na capacidade de enfrentar a realidade, de renovar mandatos quando a legitimidade escasseia e de buscar um consenso renovado para as tarefas árduas que se impõem.

Será que Chesterton não diria que é uma peculiar forma de loucura lógica querer “estabilidade” mantendo a aparência da ordem enquanto o espírito do povo se agita em desconfiança? A inação eleitoral, quando confrontada com a clara vontade popular, pode, em vez de pacificar, agravar a desconfiança e o sentimento de desempoderamento. A justiça distributiva, neste contexto, exige que a representação política seja mais do que uma formalidade, refletindo, na medida do possível, a aspiração do povo a ser bem governado.

O governo do primeiro-ministro Merz, ao apegar-se a uma interpretação restrita da estabilidade institucional, arrisca-se a fragilizar os próprios alicerces da democracia alemã. Não se trata de endossar a volatilidade eleitoral por si só, mas de reconhecer que a governança eficaz e duradoura brota da confiança mútua entre governantes e governados. A edificação de uma ordem justa exige a coragem de consultar os que nela vivem, e não apenas a perícia em contornar as tempestades.

Fonte original: Tribuna do Sertão

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

Artigos Relacionados