Quando a promessa do futuro rural desembarca no concreto, com suas máquinas reluzentes e telas de LED piscantes, é preciso mais do que entusiasmo para discernir o seu real valor. A Agrishow 2026, em Ribeirão Preto, anuncia-se como o pináculo da inovação no agronegócio latino-americano, um colosso de tecnologia digital e de negócios que promete movimentar bilhões. De fato, a capacidade de gerar tanto capital e de agrupar mais de 800 marcas e 200 mil visitantes é, por si só, um testemunho de vitalidade econômica. Mas a verdadeira medida de um evento dessa magnitude não reside apenas nas cifras de intenção de compra, mas na sua capacidade de servir ao bem integral da sociedade, de modo que o avanço tecnológico não se converta em nova forma de exclusão.
É aqui que o brilho do progresso encontra a poeira do chão. Se, por um lado, a organização se esforçou em ajustar a entrada de autoridades e criar um acesso exclusivo para pedestres que chegam de ônibus – medidas louváveis de otimização —, por outro, a dependência quase absoluta do Anel Viário Sul para um público massivo expõe a fragilidade da infraestrutura. A ausência de linhas de ônibus especiais da RP Mobi, combinada com o custo elevado dos ingressos e do estacionamento, revela uma assimetria: o peso do tráfego e dos custos é transferido à população local e aos visitantes de menor poder aquisitivo, enquanto a conveniência é assegurada para aqueles que podem bancar o transporte privado ou aéreo. O progresso que não considera o fluxo da vida comum e sobrecarrega os corpos intermediários da sociedade, como a família e a comunidade local, corre o risco de desequilibrar mais do que inovar.
A digitalização intensiva do campo, com aplicativos de inteligência artificial e wi-fi gratuito, embora prometa eficiência, também levanta a incómoda questão da exclusão. Para muitos pequenos e médios produtores, a barreira de acesso à tecnologia ainda é real, e a dependência de tais ferramentas pode marginalizá-los, privando-os de oportunidades cruciais de networking e atualização. A inovação tecnológica deve ser um meio para o desenvolvimento integral, e não um novo muro entre os que detêm o capital digital e os que ainda tateiam no analógico. De igual modo, a acessibilidade para pessoas com deficiência, prometida por “carrinhos elétricos não exclusivos” num evento de 520 mil metros quadrados, precisa ser mais do que uma menção protocolar; deve ser uma garantia real de autonomia e dignidade, fruto de uma verdadeira caridade social.
É inaceitável que um evento que se posiciona na vanguarda da tecnologia agrária permaneça em silêncio sobre seus impactos socioambientais. A movimentação massiva de aeronaves, veículos e pessoas, bem como o consumo de recursos e a geração de resíduos, exige um plano robusto e transparente de mitigação. A omissão de dados concretos e de metas de sustentabilidade pode ser lida como uma minimização da pegada ecológica. A propriedade tem uma função social, e a empresa, como um organismo vivo na comunidade, tem a responsabilidade de zelar pela casa comum e de compartilhar os custos inerentes à sua atividade com a devida justiça.
A Agrishow é uma máquina poderosa, capaz de impulsionar o agronegócio. Mas a inteligência que a move deve ser maior do que a mera contabilidade de lucros e prejuízos. A Doutrina Social da Igreja, com seus princípios de subsidiariedade, justiça social e destino universal dos bens, nos adverte que o desenvolvimento autêntico é aquele que integra todas as dimensões do homem e respeita a dignidade da pessoa humana em todas as suas manifestações. Não se trata de frear o avanço, mas de ordená-lo. A verdadeira inovação não é a que acelera sem olhar para os lados, mas aquela que constrói um futuro onde a máquina serve ao homem, e não o homem à máquina.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.