A praça pública, em sua acepção mais nobre, é o palco da polis, o lugar onde o povo se reúne para discernir o bem comum e para celebrar aquilo que o une. Transformá-la, contudo, em picadeiro para acusações vazias e espetáculo de ódio político é desvirtuar sua própria essência e, com ela, o sentido da vida cívica. Foi isso o que se viu em diversas capitais no último Primeiro de Maio, quando a celebração da laboriosidade e da dignidade humana foi sequestrada para alimentar uma narrativa que rotula o Congresso Nacional de “inimigo do povo”, vinculando, sem provas concretas, a derrubada do veto ao PL da Dosimetria a um suposto “grande acordo pela impunidade” ligado ao escândalo do Banco Master.
Não se trata de negar a legitimidade da crítica ou a necessidade imperativa de transparência em escândalos financeiros. É dever cívico e moral questionar a integridade legislativa, exigir responsabilidade e combater a corrupção. A real preocupação com a fragilidade da legislação penal em face de crimes contra o Estado Democrático de Direito, ou com a indevida influência de lobbies em decisões cruciais, é perfeitamente compreensível e deve ser acolhida. Mas a virtude da veracidade exige que a acusação grave seja acompanhada de evidências, e não de mera inferência conveniente ou da propagação de suspeitas genéricas. Rotular uma instituição inteira como “inimigo” é a tática mais antiga e perigosa da demagogia, que confunde o povo com a massa e corrói a confiança nos pilares da República.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente a partir de Pio XII, adverte para a distinção fundamental entre “povo” e “massa”. O povo, enquanto corpo orgânico e dotado de consciência, discerne, participa e exige razão. A massa, por outro lado, é suscetível à manipulação, ao emocionalismo e à redução simplista. Chamar o Congresso de “inimigo do povo” é, precisamente, um convite à massificação, uma tentativa de suprimir o debate complexo e reduzi-lo a um embate binário de “nós contra eles”, onde a verdade é a primeira baixa. A mídia responsável, nesse cenário, teria o dever de buscar os fatos, confrontar as alegações com a realidade e não ecoar acusações que, embora contundentes, carecem de lastro probatório.
A instrumentalização política de temas sensíveis, como a justiça penal e o combate à corrupção, para fins eleitorais ou para desviar o foco de derrotas legislativas, representa uma erosão da humildade cívica. A soberba de quem se arroga a exclusividade da retidão moral para desqualificar o adversário ou uma instituição inteira ignora a complexidade do jogo político e os múltiplos interesses legítimos que o compõem. O fato de o governo e o Partido dos Trabalhadores não terem apoiado a instalação de uma CPMI sobre o Banco Master, conforme apontado, fragiliza a própria narrativa de combate intransigente à corrupção que buscam ostentar, levantando perguntas incômodas sobre a coerência de suas posições.
A proposta de reduzir a jornada para 40 horas semanais sem corte de salário é uma pauta justa e legítima da classe trabalhadora, que mereceria o centro do debate no 1º de Maio. Deslocá-la para o terreno da beligerância política, onde acusações sem prova concreta servem de munição, é um desperdício de energia cívica. A construção de uma sociedade mais justa e solidária exige diálogo, negociação e respeito entre os poderes, não a anulação de um deles pela retórica incendiária. Afinal, a verdadeira realeza social de Cristo se exerce na ordem e na justiça, e não na confusão e na desconfiança recíproca.
O risco de uma polarização excessiva e o ataque generalizado a uma instituição fundamental da República é dificultar a construção de consensos e alianças políticas necessárias para o avanço de agendas importantes. A República, para manter sua vitalidade, não pode se dar ao luxo de ter um de seus poderes sistematicamente deslegitimado por figuras que deveriam zelar por seu funcionamento. É preciso que as forças políticas compreendam que a edificação da cidade terrena exige mais do que a destruição retórica de adversários; exige o cultivo paciente do senso de justiça e da veracidade na vida pública.
O terreno da República é fértil. Mas é a veracidade dos discursos e a justiça das ações que determinarão se ele dará frutos de paz ou colherá a discórdia.
Fonte original: Jornal de Brasília
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.