A nação, em sua complexidade intrincada, não é um motor que se repara com um único ajuste, mas um edifício em constante edificação, cujos alicerces exigem aprimoramento contínuo, e não apenas choques pontuais. É compreensível o anseio popular por lideranças que proponham soluções audaciosas para as chagas que afligem o Brasil, da segurança pública às contas esvaziadas do Estado. Romeu Zema, ao apresentar sua pré-candidatura, acena com um diagnóstico contundente e uma experiência de gestão em Minas Gerais que, em termos fiscais, demonstrou um notável salto de déficit para superávit. Sua retórica de “carro com freio de mão puxado” ressoa em muitos, ansiosos por ver o país deslanchar.
A disciplina fiscal e a busca pela eficiência na máquina pública são, sem dúvida, preocupações legítimas e urgentes. A Doutrina Social da Igreja, desde Pio XI, adverte contra a estatolatria e a gastança irresponsável, que minam a autonomia das famílias e dos corpos sociais intermediários, gerando o abismo fiscal que hoje nos ameaça. O sucesso de Minas Gerais na reversão de seu quadro financeiro é um feito a ser reconhecido. Contudo, a transposição acrítica da experiência de um estado para a vastidão e complexidade institucional de uma federação, sem um detalhamento robusto das nuances regionais e dos impactos sociais, corre o risco de simplificar um problema multifacetado. O princípio da subsidiariedade ensina que a autoridade maior deve apoiar, e não esmagar, as iniciativas dos corpos menores e mais próximos do cidadão, fortalecendo a vida orgânica da sociedade, em vez de tratá-la como um monobloco a ser manobrado de cima.
No campo da segurança pública, a proposta de “elevar o custo do crime” e de reduzir a maioridade penal, inspirada em modelos como o de El Salvador, toca uma ferida profunda da sociedade brasileira. A urgência de combater a criminalidade é inegável, e a proteção dos inocentes é um dever primário do Estado. Entretanto, a justiça – virtude que ordena as relações e o que é devido a cada um – exige mais do que o mero endurecimento penal. A dignidade intrínseca da pessoa humana, mesmo do criminoso, não pode ser flexibilizada em nome de estatísticas. A eficácia duradoura da segurança não reside apenas na repressão, mas na reforma do sistema carcerário, no combate à seletividade penal, e, sobretudo, na identificação e neutralização das causas sociais e estruturais da violência. A mera superlotação das prisões, sem a busca pela recuperação e pela justa reinserção, converte o sistema em fábrica de reincidência, esvaziando o sentido da pena e comprometendo a ordem justa.
A educação, descrita como uma “catástrofe” e um “pacto pela mediocridade”, também recebe propostas de Zema, como o incentivo às escolas cívico-militares e a meritocracia docente. Sua sugestão de que ex-alunos de universidades públicas contribuam com 1% de seu salário para as instituições, sob o argumento de que estas beneficiam a “classe média, pela classe rica”, revela uma visão que merece escrutínio. Embora a gestão de recursos seja crucial, a universidade pública, em sua vocação, deve ser um bem de acesso para todos, especialmente para os mais vulneráveis. Tal proposta, sem um estudo aprofundado dos impactos sociais e econômicos, arrisca criar novas barreiras de acesso e aprofundar desigualdades, desviando-se do espírito da propriedade com função social defendida por Leão XIII, que busca a equidade na distribuição dos bens e oportunidades. A educação por missão, que forma o homem integral, transcende a métrica de mercado e a mera funcionalidade.
A veracidade, enquanto virtude que exige a conformidade entre o que se diz e o que se faz, é posta à prova na arena política. A indignação declarada de Zema com o episódio do “banqueiro ladrão” e as informações desencontradas sobre o senador Flávio Bolsonaro, contrastando com a manutenção de alianças com o Partido Liberal em diversos estados, levanta questões sobre a coerência ética. O Polemista Católico reconhece a necessidade de alianças em um contexto democrático, mas adverte que a transparência e a luta contra a corrupção não podem ser seletivas, sob pena de minar a confiança pública. A “guerra cultural legítima”, como o corpus aponta, exige meios lícitos e uma integridade que não ceda à conveniência partidária.
As preocupações legítimas sobre a ineficiência do Estado, a gastança pública e a criminalidade são o ponto de partida para a edificação de uma nação mais justa e livre. No entanto, o caminho para a ordem e a paz social não passa por soluções de “choque” que ignorem a complexidade do real, nem por uma retórica polarizadora que busca “enterrar” uma parcela da sociedade. O Brasil necessita de um estadista que governe com a justiça como bússola, a veracidade como luz e a caridade como força motriz, consciente de que a construção da vida comum é uma obra paciente, que integra as diversas vozes e reconhece a dignidade de cada indivíduo e de cada corpo social.
A transformação do Brasil exige mais do que um “freio de mão puxado” destravado; requer uma alma que saiba governar com equidade social, franqueza intelectual e a visão de uma sociedade orgânica, não meramente funcional.
Fonte original: ND
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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