Atualizando...

Sanções EUA-Cuba: Justiça, Subsidiariedade e a Busca da Paz

Sanções dos EUA a Cuba: ‘castigo coletivo’ que fere justiça e subsidiariedade. O artigo, pela Doutrina Social da Igreja, defende diálogo para construir paz e dignidade para o povo.

🟢 Análise

A diplomacia, em sua essência mais nobre, busca tecer pontes com fios de diálogo e reconhecimento mútuo, mesmo entre nações de visões contrastantes. Contudo, quando a tessitura se rompe e a retórica belicosa suplanta a paciente arte do entendimento, os riscos se avolumam para todos, especialmente para os mais vulneráveis. A recente escalada de tensões entre Washington e Havana, marcada por novas sanções e ameaças militares veladas, joga uma luz dura sobre a fragilidade de uma paz que parece sempre à mercê de jogos de poder e da miopia dos interesses particulares.

Os fatos são cristalinos: o governo norte-americano, por meio de uma ordem executiva, impôs sanções ampliadas ao regime cubano, miradas em setores estratégicos como energia e finanças. Paralelamente, em um discurso de palco na Flórida, o Presidente Trump flertou com a ideia de “tomar Cuba quase imediatamente” após um eventual conflito com o Irã. Tais atos, dizem seus defensores, visam punir a repressão e garantir a segurança dos Estados Unidos. Contudo, a ilha de Cuba já jaz sob o peso de uma crise econômica severa, com escassez de combustíveis e dificuldades de abastecimento. A resposta de Havana não tardou: as medidas foram tachadas de “genocidas” e de “castigo coletivo” contra a população, e a capital cubana viu centenas de milhares em protesto, brandindo o lema “defendemos a pátria”.

Aqui reside a primeira e mais grave preocupação, que ressoa profundamente com a Doutrina Social da Igreja: a alegação de que tais sanções, ao invés de atingir a cúpula do regime, tornam-se um fardo insuportável para o povo cubano. A voz de São Tomás de Aquino, que alicerça nossa compreensão da justiça, exige que os meios sejam proporcionais aos fins e que o dano aos inocentes seja evitado ao máximo. Quando sanções econômicas se convertem em “castigo coletivo”, elas falham nesse critério. O objetivo declarado de “punir responsáveis por repressão” perde sua legitimidade moral se, na prática, ele apenas aprofunda o sofrimento de milhões que já vivem à margem da subsistência. A rede de sanções, ao se alargar indiscriminadamente, prende não só o peixe-grande, mas toda a fauna miúda que depende do ecossistema para seu pão e sua dignidade.

Para além do sofrimento imediato, há a questão da subsidiariedade e da soberania nacional. Pio XI, em sua encíclica Quadragesimo Anno, alertava contra a estatolatria e a tendência de esmagar os corpos intermediários da sociedade. Esse princípio, embora inicialmente pensado para a relação Estado-sociedade interna, estende-se à relação entre nações. A aplicação de sanções secundárias que atingem terceiros países e empresas em suas transações com Cuba é uma forma de ingerência que questiona o direito internacional e a autodeterminação dos povos. Um Estado tem o direito e o dever de proteger sua segurança, mas não pode fazê-lo à custa da desestabilização regional ou da violação sistemática da soberania alheia, nem através de medidas que contradizem os princípios elementares da justiça nas relações internacionais. Leão XIII já nos lembrava que a família é anterior ao Estado, e, por extensão, o povo deve ser protegido das garras de uma estatolatria, seja ela interna ou externa.

A retórica belicosa de “tomar Cuba”, ainda que talvez apenas uma bravata de cunho eleitoral, é um convite à escalada, não ao diálogo. Não é apenas uma questão de prudência política, mas de caridade em sua dimensão social. A caridade não é sentimentalismo frouxo, mas a reta ordenação do amor que busca o bem do próximo, mesmo quando esse próximo é um adversário político. A disposição cubana para um “diálogo sério e responsável”, embora permeada pela retórica do regime, era um fio a ser puxado, não cortado com a navalha de ameaças. A paz verdadeira floresce no reconhecimento recíproco de que o outro é uma pessoa, um povo, com sua dignidade e aspirações, e não apenas um peão em um tabuleiro geopolítico. A história nos ensina que a paz não é a mera ausência de guerra, mas a tranquilidade da ordem. E essa ordem se constrói com veracidade — distinguindo o que é ameaça real do que é pretexto para ação unilateral — e com fortaleza — para resistir à tentação do atalho da força bruta, mantendo a firmeza moral de um propósito justo. Uma liberdade imposta por castigo econômico massivo ou por invasão militar dificilmente gerará uma ordem justa e duradoura para o povo cubano.

Quando a política internacional se reduz a um embate de vontades e ameaças, a primeira vítima é sempre a esperança de um mundo mais justo e humano. A verdadeira segurança de uma nação não reside na capacidade de subjugar o outro, mas na retidão de suas intenções e na firmeza de seus princípios de justiça.

Fonte original: Jornal Grande Bahia (JGB)

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

Artigos Relacionados