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Republicanos: Discurso e Pragmatismo no Centro Político

O Republicanos se diz "centro democrático", mas suas alianças revelam um pragmatismo que mina a coerência. Analisamos a dissonância entre discurso e ação na política brasileira atual.

🟢 Análise

O palco da política brasileira raramente dispensa seus personagens de usar máscaras. Há quem vista o manto do “novo” para ocultar velhas práticas, e quem se diga “centro” enquanto flutua ao sabor dos ventos do poder. O Republicanos, pela voz de seu presidente Marcos Pereira, apresenta-se como um partido de “centro democrático”, de “centro-direita” com “valores muito bem estabelecidos”, mas a coreografia de suas alianças e o teor de suas críticas revelam um espetáculo onde a fachada e a realidade nem sempre coincidem. O que se desenha não é tanto um compromisso com a construção de uma ponte, mas a busca pelo melhor camarote na barca da polarização.

Não há como negar a legitimidade de certas preocupações expressas pelo líder republicano. A judicialização excessiva da política, por exemplo, é um mal real que desvirtua a ordem dos bens e as funções institucionais, especialmente quando a inércia do Parlamento abre margem para que o Judiciário se intrometa em matérias que não lhe cabem primariamente. A desarmonia entre os Poderes, que a Constituição pretende independentes e harmônicos, é uma chaga que clama por autocontenção e por um debate sincero. E a polarização extrema, ah, essa sim é um veneno que impede o discernimento e a busca por soluções ponderadas.

Mas a veracidade exige que perguntemos: qual a fronteira entre a crítica principial e a conveniência tática? Marcos Pereira condena os “excessos no Judiciário” e a “politização da Justiça”, o que é um juízo válido em tese. Contudo, essa mesma voz se fez presente para intervir junto ao Supremo a fim de assegurar a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro. É como um médico que critica a falta de higiene, mas não hesita em operar com luvas sujas se o paciente for de seu agrado. A incoerência mina a autoridade moral da crítica, transformando o que deveria ser um princípio em mera ferramenta retórica. Para Chesterton, a sanidade política reside na capacidade de ver o óbvio e nomeá-lo, mesmo quando a loucura ideológica ou a conveniência partidária insiste em negar a realidade. Chamar o “Centrão” de “ficção criada pela imprensa” enquanto se replicam suas lógicas de barganha e acomodação é um desses paradoxos que, de tão óbvios, beiram o cômico.

Um partido que se alinha à “centro-direita” e professa “valores muito bem estabelecidos” deveria, por princípio, edificar sua ação em pilares mais firmes do que o pragmatismo da oportunidade. A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, defende a liberdade ordenada e as associações livres, mas sempre em vista da vida comum, do bem da cidade, onde os corpos intermediários – partidos incluídos – atuam como fermento de virtudes cívicas, não como meros caçadores de cargos. Pio XI, ao alertar sobre a “estatolatria”, ofereceu um antídoto contra qualquer tentação de absolutizar o poder, seja ele estatal ou partidário. O “centro democrático” não é um espaço vazio para barganhas, mas uma arena para a construção paciente de consensos sobre princípios duradouros como a subsidiariedade e a justiça social, fundamentais para que a sociedade não seja esmagada pela massa nem fragmentada pelo sectarismo.

A crítica à ingerência excessiva do Estado na economia e ao consequente aumento de gastos, como observado em administrações passadas, é pertinente e encontra ressonância na Doutrina Social, que valoriza a iniciativa privada e a responsabilidade. No entanto, o problema não se resolve apenas trocando um polo de poder por outro. Se o Republicanos se diz apto a “furar a polarização”, sua estratégia não pode ser meramente a de escolher o flanco mais promissor para 2026. A aliança não pode ser apenas uma soma aritmética de votos ou a troca de “gestos” vazios, como o senador Marcos Pereira tem cobrado do PL. Ela precisa ser, antes de tudo, uma convergência de visões sobre a ordem justa e o destino comum da na nação.

O desvio entre o que se diz e o que se faz, essa dissonância entre a intenção professada e a ação concreta, é a marca de um jogo político que empobrece a deliberação pública e corrói a confiança. Um partido que se pretende baluarte de valores, ao transigir na clareza de suas posições e na coerência de suas ações, acaba por enfraquecer não só a si mesmo, mas a própria ideia de que a política pode ser um caminho para a justiça. O desafio maior para o Republicanos não é navegar nas águas turvas da polarização, mas ancorar seu navio em princípios que resistam às marés da conveniência eleitoral.

A força de um movimento político não reside na maleabilidade de sua bandeira, mas na integridade com que seus ideais são levados ao combate e à construção.

Fonte original: VEJA

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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