O calendário eleitoral, em sua secura jurídica, parece impor uma ordem às paixões políticas. Mas o que se vê, ano após ano, é uma corrida que começa bem antes do apito, sob um nevoeiro denso que embaça as balizas da competição. Em Mato Grosso do Sul, como em muitos outros palcos nacionais, a pré-campanha tornou-se uma arena velada onde as regras são testadas, torcidas e, muitas vezes, propositadamente obscurecidas. Nomes como Nelsinho, Contar, Reinaldo e Vander já se movem no tabuleiro, cada qual construindo sua narrativa, enquanto a Justiça Eleitoral assiste a um espetáculo de “gato e rato” que corrói a fé pública.
A distinção entre “pré-campanha” e “campanha” virou uma ficção jurídica conveniente para quem detém o poder da máquina. Quando deputados do PT denunciam o Planalto por “propaganda” de obras federais no estado, ou quando Rodolfo Nogueira (PL) critica o governo em eventos que parecem ensaios de comício, enquanto Tiago Botelho (PT) contra-ataca com acusações de campanha antecipada, o que se revela é um jogo de esgrima legal onde a verdade é a primeira a ser ferida. O uso de recursos governamentais para publicizar obras e ações, mascarando-as como informação de utilidade pública, confere uma vantagem desproporcional e injusta. A máquina estatal, que deveria servir à totalidade dos cidadãos, é instrumentalizada para fins partidários, uma manifestação daquela estatolatria que Pio XI já denunciava, onde o Estado se eleva acima de sua finalidade de bem comum.
Há quem defenda que essa pré-campanha extensa é a “evolução natural” da política moderna, e que tentar enquadrá-la em caixas rígidas seria anacrônico. Diriam que o foco deveria estar apenas na transparência dos financiamentos, não na limitação da interação legítima. Contudo, a política, como toda ação humana, está sujeita à lei moral e à busca da justiça. A interação legítima não pode confundir-se com a astúcia de se aproveitar de brechas legais para obter uma largada desleal. A ambiguidade legal não é sinal de modernidade, mas de uma falta de veracidade que prejudica eleitores, candidatos com menos recursos e, em última instância, a credibilidade das próprias instituições.
Quando a justiça eleitoral, como no caso do carnaval de 2022 com a homenagem a Lula, entende que não houve pedido explícito de voto em eventos de alto impacto político, aceita-se uma convenção que dificulta a aplicação da lei. Isso transforma a fiscalização em uma caçada inconclusiva, onde o “pedido explícito” se torna um biombo, e a “pré-campanha” é o único terreno onde candidatos sem grande estrutura podem tentar ganhar terreno antes que a máquina oficial se ative com força total. Esse não é um sinal de maturidade democrática, mas de uma debilidade estrutural que clama por clareza e por uma aplicação da lei com mais reta prudência e menos condescendência tática.
A polarização entre direita e esquerda do Planalto, projetada no cenário local, muitas vezes serve para desviar o olhar do eleitor dos currículos, das propostas concretas e da real capacidade de serviço dos candidatos. A simples dicotomia ideológica, quando superestimada, reduz a complexidade da vida pública e obscurece a necessidade de avaliações substantivas. A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, reitera que a família é anterior ao Estado e que a propriedade tem função social. O que se aplica à esfera econômica vale para a política: o bem comum não é uma abstração a ser conquistada por manobras, mas uma realidade a ser construída com honestidade e com instituições que sirvam de fato à comunidade, e não a uma elite de estrategistas.
A arte de governar não se mede pela perícia em navegar zonas cinzentas, mas pela capacidade de edificar sobre alicerces de verdade e de justiça. O custo democrático de um sistema que permite à “pré-campanha” ser uma corrida de “gato e rato” jurídico é a corrosão da confiança e a banalização do processo eleitoral. O eleitor não é um mero espectador esperando que o “caminhante se revele”, mas um cidadão que merece um debate limpo e transparente.
A política digna não é o tabuleiro onde se testa o limite da lei, mas o espaço onde a lei é a baliza inegociável da verdade e da justiça.
Fonte original: Diário Digital
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.