O pássaro que se contenta com o voo curto, rente ao chão, mal vislumbrando o horizonte que se estende para além de sua vista imediata — essa é a imagem que, por vezes, se projeta sobre o debate público a respeito do destino de nossa nação. Quando um pré-candidato à Presidência lança seu olhar sobre a administração atual, e o faz com a metáfora do “voo de galinha”, aponta para uma agenda que, a seu ver, prioriza o ornamental, o gasto eleitoreiro e o imposto, negligenciando a verdadeira mola do crescimento econômico. Há uma preocupação legítima aqui: a de que um país não pode subsistir de cheques emergenciais ou de promessas aéreas, mas necessita de alicerces sólidos para um futuro digno.
A crítica de que o Bolsa Família, embora necessário, não pode ser um “projeto de vida” toca numa fibra essencial da doutrina social. Programas assistenciais são um imperativo da caridade e da justiça para mitigar a desigualdade e a pobreza aguda, mas sua finalidade não se esgota em alimentar; ela se completa em capacitar e emancipar. A subsidiariedade, pilar da ordem social católica, clama por um Estado que fomente as condições para que o indivíduo e as associações intermediárias prosperem, não que os absorva em uma dependência perpétua. O crescimento econômico, para ser virtuoso, não é um fim em si, mas um meio para que a pessoa possa desenvolver suas potências e encontrar no trabalho, com salário justo e propriedade difusa, a base para uma vida autônoma e participativa.
O problema, contudo, reside na falsa dicotomia que pretende opor um suposto “desenvolvimento” — restrito à pecuária, agricultura e mineração — a uma “agenda de comportamento” ou “de costumes”, como se o humano pudesse ser segmentado em partes estanques, umas essenciais e outras meramente decorativas. Essa é a loucura lógica das ideologias que, na ânsia de simplificar o real, o distorcem, amputando o todo pela parte. O desenvolvimento integral da pessoa humana, como ensina o Magistério, não se mede apenas pelo PIB ou pela balança comercial, mas pela florescência de suas dimensões espirituais, culturais, sociais e cívicas. As pautas de direitos, a busca por inclusão e a valorização da diversidade — sejam elas quais forem, desde que não violem a lei natural — não são “ornamentais” para um grupo restrito, mas intrínsecas à construção de uma sociedade justa e coesa, um terreno fértil para que o verdadeiro capital humano viceje. Negar isso é cair na tentação de um materialismo prático que desconhece a riqueza da alma humana e a complexidade do bem comum.
Da mesma forma, a leitura da dinâmica política, que atribui a rejeição de um nome para o Supremo Tribunal Federal unicamente à “fragilidade do governo” ou à “politização” da Corte, embora contenha elementos de verdade, simplifica a complexidade das instituições. O Senado, ao aprovar ou rejeitar indicações, exerce uma prerrogativa constitucional de freio e contrapeso, crucial para a saúde da República. Reduzir a ação do Judiciário a um mero jogo de interesses políticos é minar a confiança pública nas próprias bases que sustentam a ordem civil. O debate sobre os limites e a atuação do STF é vital, mas deve ser conduzido com a veracidade de quem busca a justiça e a estabilidade, não apenas a vantagem eleitoral. É preciso que, mesmo na arena política, prevaleça a humildade de reconhecer que as instituições não se dobram a um único partido ou ideologia, e a responsabilidade de não as deslegitimar por conveniência retórica.
Um governo verdadeiramente comprometido com a realeza social de Cristo, que se traduz na busca por uma ordem social justa e fraterna, não se confina a um voo baixo e curto, mas almeja a elevação do carcará. Isso exige mais que a gestão de despesas e benefícios; demanda a edificação paciente de uma economia que promova a propriedade difusa e o trabalho digno, uma cultura que nutra a verdade e a beleza, e instituições que operem com transparência e integridade. A esperança, para não ser uma “farsa”, precisa de substância, de um projeto que abrace o homem por inteiro e não o reduza a um mero produtor ou consumidor, tampouco a um recebedor passivo de auxílio.
A verdadeira edificação de uma nação, portanto, não se faz com dicotomias simplistas ou com a desqualificação do que é essencialmente humano. Ela se constrói, tijolo por tijolo, sobre os pilares da justiça social, da subsidiariedade e da solidariedade, reconhecendo que o bem da cidade reside na promoção de cada cidadão em sua integralidade. O Brasil precisa de um voo alto, sim, mas um voo que carregue consigo a alma e o corpo, a mesa e o espírito, a liberdade e a responsabilidade de todos os seus filhos.
Fonte original: Jornal Diário do Grande ABC
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.