A campanha presidencial, em sua essência, é um convite à deliberação sobre o futuro. Mas o que pensar de uma candidatura que se anuncia como “revolucionária”, que proclama a falência estrutural do sistema que a acolhe, e que, eleição após eleição, reafirma sua própria marginalidade eleitoral? O Partido da Causa Operária, com seu líder Rui Costa Pimenta, ocupa esse espaço singular no teatro político brasileiro, persistindo em uma disputa que, para muitos, parece mais uma encenação ideológica do que uma busca pragmática pelo poder. Seus 40 anos de militância e quase 30 de partido, com apenas um vereador eleito em toda sua história, falam por si.
Não se pode, contudo, desconsiderar as chagas que o discurso do PCO, ainda que com lentes distorcidas, aponta. Há uma verdade incômoda na percepção de um Brasil “escravizado pelos mecanismos do sistema financeiro mundial”, na fragilidade de sua indústria e na desigualdade abissal de renda que o separa de nações outrora menos desenvolvidas, como a China. A dificuldade de governar “por dentro das instituições” – um lamento do próprio Pimenta sobre o PT – a insuficiência da segurança pública para os mais pobres e a questão do acesso universal à universidade são problemas reais, que clamam por soluções justas e eficazes.
O diagnóstico, porém, não justifica a febre. A Doutrina Social da Igreja, alicerçada na reta razão e na experiência histórica, recusa tanto a privatização desmedida que sucateia o patrimônio público quanto a estatolatria que centraliza todo o poder e aniquila as iniciativas dos corpos intermediários. Pio XI, em sua Quadragesimo Anno, já advertia que o Estado deve ser guia e promotor, mas jamais absorver o que as menores e inferiores comunidades podem fazer. A “guarda popular” ou “milícia popular” sugerida pelo PCO, com sua conotação de autodefesa armada e fragmentação da autoridade legítima, não seria uma resposta à injustiça, mas um convite ao caos, minando a ordem necessária para a própria consecução da Justiça. A sociedade não se constrói pela demolição impaciente, mas pelo trabalho artesanal que ordena os direitos e deveres em cada esfera da vida comum, do indivíduo à nação.
E aqui se revela a fratura interna do polemista revolucionário. Criticar a perseguição judicial ao bolsonarismo como um “processo ilegal” e a narrativa do 8 de Janeiro como “ficção”, ao mesmo tempo em que se defende o apoio a regimes como o da China ou do Irã – onde as “democracias de estilo tradicional” são aniquiladas – é um exercício de contorcionismo ideológico. Chesterton talvez apontasse que a sanidade não consiste em ter uma lógica perfeita que nega o real, mas em manter a conexão com a realidade, mesmo que ela seja incômoda. A obstinação em repetir a fórmula eleitoral, sempre na última posição, e ainda assim prever um “fortalecimento” e “aumento da zona de influência”, denota uma notável falta de Humildade diante dos fatos. Não basta denunciar; é preciso construir, e construir sobre o terreno que existe, não sobre o que se fantasia.
A verdadeira transformação social não se faz com anistias convenientes ou com a inversão da opressão, mas pela instauração de uma ordem justa que proteja o fraco e promova a dignidade da pessoa humana e o bem de todos. Isso exige não uma “revolução proletária” abstrata, mas o fortalecimento concreto da liberdade ordenada, onde a propriedade cumpre sua função social, as associações livres florescem (Leão XIII) e a dignidade do trabalho é assegurada por um salário familiar e corpos intermediários. A reconstrução passa por uma educação que não apenas universalize o acesso, mas que cultive as virtudes, com conselhos escola-família-comunidade e transparência curricular, e por uma cultura pública que reabilite o patrimônio e a memória simbólica, em vez de trocar uma ideologia por outra.
A tese de que só a revolução pode mudar o Brasil, enquanto se esgota em participações eleitorais inócuas, revela a aridez de uma ideologia que se recusa a fecundar a realidade. O caminho para um país mais justo e soberano não reside na promessa de um levante que nunca chega, mas na paciente edificação das virtudes sociais, na defesa incansável da Justiça e no reconhecimento humilde de que a verdade, para ser eficaz, precisa dialogar com o chão que pisa e com o povo que pretende servir.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.