A cada ciclo eleitoral, a cortina da comédia humana se ergue para mais um ato. Neste, um ator veteraníssimo, o Partido da Causa Operária, liderado por Rui Costa Pimenta, anuncia sua quinta encenação de uma peça que já conhecemos de cor: a da “revolução proletária e socialista”. É um roteiro familiar, quase folclórico em sua teimosia eleitoral, mas que carrega, sob a capa da utopia, uma trágica negação da realidade e dos alicerces de uma sociedade verdadeiramente justa.
Não se pode negar, contudo, que nas entrelinhas de suas críticas residem preocupações legítimas que ressoam com muitos. A estagnação econômica brasileira em comparação com nações como a China, a desindustrialização, a dívida pública, a dificuldade de governos em alterar estruturas profundamente enraizadas e a persistência de uma crise social que aflige a população mais vulnerável são fatos que exigem atenção e respostas concretas. A própria função da polícia, quando percebida como instrumento de opressão e não de proteção igualitária, ou a premente necessidade de democratizar o acesso à universidade, são pautas que, em si, tocam a sensibilidade da justiça. Mas o diagnóstico, mesmo quando acerta no sintoma, não legitima qualquer tratamento.
A Doutrina Social da Igreja, erigida sobre a rocha do Magistério e a razão tomista, não se ilude com a miragem de um paraíso terrestre alcançado pela demolição violenta do que existe. Ela condena a “revolução proletária e socialista” não por aversão à mudança, mas por sua intrínseca desordem. O socialismo, em sua raiz, erra ao abolir a propriedade privada, fundamento da liberdade e da família, e ao concentrar poder no Estado, levando à estatolatria e à instrumentalização do “povo” em “massa” anônima, manipulável por uma elite partidária. O caminho, portanto, não é o de chamar o povo a “se mobilizar contra o sistema político” de modo irrefletido, mas a reformar as instituições com fortaleza e perseverança, respeitando a liberdade ordenada e a primazia da pessoa.
As soluções propostas pelo PCO, como o “cancelamento da privatização das principais empresas” e a criação de uma “guarda popular” ou “milícia popular”, são emblemáticas dessa ingenuidade revolucionária. A reestatização arbitrária desconsidera direitos adquiridos e a estabilidade jurídica, enquanto a substituição da polícia por “milícias populares” subverteria o monopólio legítimo da força, essencial para a ordem e a segurança de todos. Tais propostas, em vez de corrigir distorções, tendem a engendrar novas e piores arbitrariedades, abrindo as portas para o caos e o autoritarismo, fenômenos historicamente observados onde se tentou impor “democracias de estilo não tradicional”, como em alguns dos países que o PCO defende.
Há uma profunda falta de humildade intelectual em assumir que o sistema atual é tão irremediavelmente falho que só a ruptura radical serviria. A experiência nos ensina que o progresso é gradual, fruto de incessantes reformas guiadas pela virtude e pela justiça, e não pelo delírio ideológico. A verdadeira soberania de uma nação não se conquista desmantelando seu aparato produtivo ou sua ordem legal, mas fortalecendo os corpos intermediários da sociedade, promovendo a propriedade difusa, o salário familiar, a transparência curricular e a educação moral — eixos concretos que a Doutrina Social aponta desde Leão XIII. O combate à desinformação e ao ativismo judicial, legítimas preocupações, requer mais discernimento e menos retórica incendiária, baseando-se em fatos e leis, não em ficções convenientes ou em acusações sem provas.
Para além das urnas, onde a representatividade do PCO é historicamente diminuta, o verdadeiro campo de batalha é o das ideias e da ação prudente no mundo real. Desperdiçar a oportunidade de influenciar o debate com propostas concretas de justiça social para se apegar a uma liturgia revolucionária fadada ao fracasso é, no mínimo, um desserviço àqueles a quem se pretende servir. O caminho não é o da negação, mas o da construção paciente, que valoriza cada pessoa, cada família, cada comunidade, e as ergue como pilares de uma sociedade justa e verdadeiramente livre.
A verdadeira fundação de uma nação não se ergue sobre escombros de ideologias falidas, mas sobre a rocha da justiça, da subsidiariedade e da caridade, construída pela humildade de reconhecer o real e a fortaleza de reformá-lo, tijolo a tijolo, pelo bem de cada pessoa e de toda a sociedade.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.