Navegar pelas águas turvas do debate político no Oriente Próximo exige não apenas coragem, mas uma bússola moral calibrada. Os fatos denunciados pelo Partido da Causa Operária (PCO) — a perseguição judicial aos seus líderes por críticas ao sionismo e a “Israel”, o sofrimento brutal em Gaza, os ataques indiscriminados e a morte de civis como o comandante Ezeddin al-Haddad e sua família — suscitam, sem dúvida, sérias preocupações legítimas sobre a liberdade de expressão e a incessante violação da dignidade humana. A denúncia de um Estado que perpetra ações desumanas contra uma população subjugada é um dever, e a crítica ao sionismo como ideologia política é, em princípio, legítima, desde que rigorosamente distinguida do antissemitismo. Contudo, a forma como essa denúncia é articulada pelo PCO, com sua retórica de “destruição de um Estado judeu” e comparações com o Holocausto, coloca em risco a própria justiça que alega defender.
A doutrina social da Igreja, desde Leão XIII e Pio XI, tem uma visão clara sobre a natureza e os limites do Estado e da liberdade. O Estado existe para servir ao bem comum de todos os seus cidadãos, e não para ser um instrumento de supremacia racial, étnica ou religiosa. Um Estado que marginaliza uma parte de sua população em nome de uma identidade confessional exclusiva é, de fato, problemático à luz da lei natural e da justiça. Pio XII, por sua vez, alertava sobre a massificação e a importância da comunicação responsável, um convite à clareza e à distinção para não confundir o “povo” com a “massa” e para não desvirtuar a verdade com a propaganda. É o que acontece quando a crítica política, que deve ser dirigida às ações e políticas de um governo, se transforma em uma negação da existência ou do direito à autodeterminação de um povo inteiro.
A fronteira entre a crítica política vigorosa e a incitação ao ódio é tênue, mas real. Chamar à “destruição de um Estado judeu” sem maior distinção ou contextualização, especialmente em um cenário de conflito histórico e religioso, pode ser interpretado — e não sem razão — como um apelo à violência contra um povo, e não apenas à transformação de um regime político. A virtude da veracidade exige que se separe o joio do trigo: a ideologia sionista e as políticas do Estado de Israel, que podem e devem ser questionadas, do judaísmo como fé e identidade cultural. O “truque do lobby sionista” denunciado por Rui Costa Pimenta, de confundir ambos para silenciar a crítica, não pode ser combatido por uma retática que, paradoxalmente, termina por fazer a mesma confusão, amalgamando a crítica legítima à política com uma ameaça existencial a uma comunidade. A verdade não se serve da inverdade para prevalecer.
Ainda mais grave é a trivialização da memória histórica. A comparação direta e irrestrita das ações de Israel com o Holocausto nazista, usando a frase “o que eles fazem é igualzinho”, não apenas revela uma falta de temperança retórica, mas é um ultraje à memória das vítimas de um dos maiores genocídios da história. Essa hipérbole, longe de fortalecer a causa palestina, a deslegitima aos olhos de muitos que compartilham a indignação pelas violações de direitos humanos em Gaza, mas que se recusam a aceitar tal deturpação histórica. A busca por justiça para os palestinos não exige que se negue ou se menorize o sofrimento judaico, nem que se adote uma linguagem que espelhe a violência que se pretende condenar.
Quando Victor Assis afirma que, para o Irã, “você tem que impor por meio da força, não adianta confiar em conversa ou coisa do tipo”, e que o país está “instituindo o controle do Estreito de Ormuz” unilateralmente, revela-se uma perigosa lógica de poder que contrasta com a busca por soluções pacíficas e multilaterais. Embora a legítima defesa e a soberania sejam direitos, a Doutrina Social da Igreja sempre advoga pelo primado do diálogo e da negociação, pela ordem e pela paz, em vez da imposição pela força bruta. A justa causa da autodeterminação não pode ser refém de uma retórica que abole as nuances, confunde o inimigo político com o inimigo existencial e, no fim, obscurece o caminho para a paz duradoura.
O PCO tem o direito de criticar o Estado de Israel e o sionismo, e de denunciar as atrocidades contra o povo palestino. Essa liberdade é um bem precioso que deve ser protegido. Contudo, a responsabilidade do discurso público, especialmente em tempos de paixões acirradas, exige clareza e precisão. O que está em jogo não é apenas a liberdade de um partido em expressar suas opiniões, mas a integridade da linguagem e a possibilidade de se alcançar uma justiça que seja verdadeira, para todos. A verdadeira justiça passa pela veracidade das palavras, que devem construir pontes de entendimento, mesmo em meio à discórdia, e não incendiar os alicerces da convivência civil. A história mostra que a defesa da dignidade humana é um desígnio que não pode prescindir da inteligência das distinções.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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