A vitrine do progresso, muitas vezes, brilha com um verniz tão sedutor que mal permite vislumbrar a textura real da madeira que sustenta o edifício. Notícias sobre Curitiba aclamada como farol de liberdade econômica, a Sanepar prometendo contas mais leves com bilhões recuperados, e a educação paranaense celebrando índices de alfabetização que parecem saídos de um sonho, compõem um mosaico de bonanças. Há, sem dúvida, mérito em cada um desses anúncios: a vitalidade do comércio, a responsabilidade corporativa (ainda que tardia), e o esforço heroico de municípios que atingem o pleno domínio da leitura e escrita em suas escolas primárias. Mas a verdade, como o corpo de Cristo na Eucaristia, não se dá por partes, mas por inteiro. E a verdade integral, neste cenário, exige mais que aplausos; exige um olhar que perscrute as bases e não apenas as flores na sacada.
A celebração dos 80% de crianças alfabetizadas no 2º ano do ensino fundamental no Paraná é um marco, sim, e os 14 municípios que alcançaram 100% são dignos de reconhecimento. Não nos esqueçamos, contudo, de que a educação é um rio caudaloso, e não um açude estanque. O que se faz para além do 2º ano? Qual a qualidade do ensino que se segue, e como se combate o analfabetismo funcional que ainda assola faixas etárias mais avançadas e adultos? O foco em um único índice, por mais impressionante que seja, corre o risco de desviar o olhar dos desafios estruturais que ainda comprometem a formação plena do povo, reduzindo a complexidade da inteligência humana a uma métrica parcial. A subsidiariedade aqui não se dá apenas no sucesso dos pequenos municípios, mas na capacidade de replicar essa excelência e no cuidado com cada etapa da formação, do berço à universidade.
No campo econômico, a “liberdade para trabalhar” em Curitiba, destacada por uma publicação, é um bem, se efetivamente se traduz em oportunidades justas para todos. Mas qual a realidade dos pequenos empreendedores, dos trabalhadores informais, daqueles que não figuram nas estatísticas de grandes empresas ou no brilho dos novos negócios? A verdadeira justiça social não se mede apenas pela abertura de mercado, mas pela distribuição equitativa de suas benesses e pela proteção dos mais vulneráveis contra a precarização. Da mesma forma, a redução da tarifa da Sanepar, após a recuperação judicial de R$ 4 bilhões, é uma correção necessária, mas suscita a incômoda pergunta: qual foi o custo dessa ineficiência ou desvio pretérito para o bolso do cidadão, e por quanto tempo se arrastou? A transparência sobre a aplicação desses recursos recuperados, e a priorização de investimentos em saneamento onde a carência é maior, são a prova de que a medida vai além do anúncio e se converte em bem concreto.
A infraestrutura, com o aumento projetado do tráfego na BR-277 impulsionado pela Ponte da Vitória, é um símbolo de conexão e progresso material. Mas esta expansão não pode prescindir da responsabilidade ambiental e social. Quais as medidas reais de mitigação de impacto no litoral? A facilidade de acesso não pode ser um pretexto para a degradação ou para o abandono das comunidades costeiras. A temperança no uso dos recursos naturais e a veracidade na avaliação dos impactos são virtudes inegociáveis para um desenvolvimento que se pretende sustentável e justo.
Finalmente, no turbilhão político, assistimos a propostas legislativas bem-vindas, como a PEC contra a violência à mulher e a PEC do SUAS, que prometem reforçar a proteção dos vulneráveis. A intenção é louvável, mas a efetividade depende da implementação, do financiamento e da fiscalização que transcendam a mera simbologia. No que tange à articulação jurídica para acionar o STF após uma rejeição no Senado, Chesterton nos lembraria do paradoxo da sanidade: a hiper-judicialização da política, que tenta anular o legítimo jogo dos freios e contrapesos constitucionais, pode minar a própria vitalidade democrática, transformando o diálogo institucional em um campo de batalha permanente onde a vontade do povo, expressa por seus representantes, corre o risco de ser continuamente subvertida por um ativismo judiciário. O respeito às instâncias e à ordem das coisas é um ato de humildade cívica.
Verdadeiro progresso não é a soma de manchetes favoráveis, mas a edificação sólida de uma sociedade onde a justiça prevalece, a veracidade é um valor inegociável, e a subsidiariedade permite que cada célula do corpo social floresça. O Paraná em movimento merece mais do que um espelho que reflete apenas o que agrada; precisa de um farol que ilumine cada canto, revelando tanto os caminhos percorridos quanto os desafios que ainda esperam por um olhar atento e uma ação transformadora.
Fonte original: Diário do Sudoeste
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.