A construção de uma ponte, outrora tida como impossível, é um triunfo da engenharia e uma promessa de progresso. Mas a edificação de uma sociedade justa e próspera exige mais do que pilares de concreto; demanda a argamassa invisível da equidade, o arcabouço da verdade e o diálogo constante entre as diversas forças que compõem o corpo social. Reduzir a complexa arte de governar a um mero “tocador de obras”, por mais eficiente que seja, é empobrecer o horizonte da política e subestimar as verdadeiras necessidades do povo.
Não se negam os méritos de uma gestão que aponta para índices macroeconômicos robustos, para a agilidade em grandes obras de infraestrutura e para a recuperação da eficiência de setores públicos que antes sangravam em escândalos. A ponte de Guaratuba, o Porto de Paranaguá, os investimentos em moradia são fatos que testemunham um certo tipo de resultado. Contudo, a virtude política não se esgota na capacidade de erguer estruturas de concreto ou de exibir planilhas de desempenho. A máquina estatal, por mais azeitada que seja, serve a um corpo social multifacetado, com dores e esperanças que transcendem o asfalto novo.
É precisamente aqui que a narrativa da “equipe que resolve” versus o “time que reclama” revela sua fragilidade conceitual. A verdadeira justiça social não se estabelece pela mera entrega de bens materiais, mas pela participação equitativa nos bens comuns e pela consideração das vozes que, de modo legítimo, apontam para carências ainda não atendidas. A primazia da subsidiariedade, princípio basilar da Doutrina Social da Igreja, nos recorda que o Estado não é o único agente de solução, nem a voz única da verdade sobre o bem comum. Ele existe para apoiar e coordenar as instâncias sociais menores – famílias, associações, comunidades – e não para substituí-las ou desqualificar suas preocupações.
A insistência na “continuidade do projeto” e a forte identificação do pré-candidato com o legado do atual governo, embora politicamente eficazes, levantam um ponto crítico: a capacidade de discernimento e de retificação. Não basta dar sequência a obras iniciadas; é preciso discernir quais desafios futuros exigem novas visões, e quais ajustes são necessários em um estado que envelhece, que busca diversificar sua economia para além dos pilares tradicionais e que enfrenta dilemas ambientais e sociais complexos. A humildade política reside em reconhecer que, por mais exitoso que tenha sido um ciclo, o futuro sempre demanda um olhar renovado e a coragem de questionar o próprio caminho.
O anseio de “não trazer a briga de Brasília para o Paraná” é compreensível, mas a realidade eleitoral é orgânica. O eleitor não vive em compartimentos estanques, dissociando suas preocupações nacionais de suas escolhas estaduais. Ignorar essa interconexão é abraçar uma ilusão pragmática que, no fim, pode cobrar seu preço na urnas. Como diria Chesterton, a sanidade está em enxergar a realidade como ela é, em suas conexões e paradoxos, e não como gostaríamos que ela fosse para nossa conveniência política. A redução do debate a uma mera contabilidade de obras e a uma dicotomia simplista entre “quem faz” e “quem critica” empobrece a deliberação pública.
O verdadeiro estadista, para além de um “tocador de obras”, precisa ser um tecelão de consensos, um ouvinte atento das vozes dissonantes e um visionário para as demandas que ainda não se transformaram em concreto. A grandeza de um governo não se mede apenas pela capacidade de erguer o que era “impossível” em termos de engenharia, mas pela habilidade de construir uma sociedade mais magnânima, que integre a prosperidade material com a equidade social, a solidez institucional com a liberdade participativa. O Paraná merece a edificação de um futuro que não seja apenas uma repetição competente do passado, mas uma ascensão em graça e verdade.
Fonte original: Bem Paraná
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.