O Estreito de Ormuz, artéria vital do comércio global por onde jorra um quinto do petróleo que move o mundo, transformou-se numa garganta onde a respiração da paz fica suspensa. Não é o acaso geográfico que a torna um ponto de estrangulamento, mas a tensão deliberada entre duas potências, uma armada até os dentes, outra obstinada em sua resistência. De um lado, os Estados Unidos impõem condições severas, exigindo que o Irã renuncie à violência e ao seu programa nuclear, sob a sombra de ameaças existenciais. Do outro, o regime iraniano contra-ataca com suas próprias exigências, incluindo o fim dos ataques israelenses ao Hezbollah, enquanto se recusa à rendição incondicional.
A tragédia deste embate, que já ceifou treze vidas americanas e fustigou o Irã com bombardeios, manifesta-se no paradoxo de uma diplomacia que simula diálogo sem jamais se encontrar. Em Islamabad, delegações de ambos os países estiveram reunidas, mas sem jamais cruzar os olhos ou apertar as mãos. Tal encenação levanta uma questão essencial: pode uma paz justa nascer da mera imposição de condições unilateralmente ditadas, ou de uma retórica que promete o “fim da civilização persa”? A Doutrina Social da Igreja, em sua sabedoria perene, nos ensina que a paz não é a mera ausência de guerra, mas a tranquilidade da ordem, fruto da justiça. E a justiça, nas relações internacionais, exige o reconhecimento da dignidade de cada nação e a busca por soluções que não esmaguem, mas integrem.
A estratégia de “pressão máxima”, concebida para dobrar a vontade de um adversário pela exaustão e pelo medo, raramente produz o que promete. Como atesta a história, desde as dolorosas lições do Vietnã e, mais recentemente, do Iraque e Afeganistão – onde a retirada de tropas americanas em 2021 abriu as portas para o Talibã –, a coerção radical e a ameaça existencial tendem a fortalecer os elementos mais intransigentes de um regime, enrijecendo a resistência e tornando o diálogo honesto uma quimera. É uma falsa sanidade esperar que a aniquilação cultural ou a desmantelação unilateral da segurança nacional de um Estado soberano seja aceita sem resistência. Pelo contrário, tal abordagem eleva o risco de uma escalada descontrolada, com repercussões catastróficas para a economia global e, acima de tudo, para a vida humana.
A linguagem carregada, que pinta um lado como o “Grande Satã” ou “ditadura medieval” e o outro como o “imperialismo ianque”, serve apenas para desumanizar o adversário e fechar as portas da razão. A veracidade e a temperança na comunicação são preceitos morais inalienáveis, mesmo na hora do conflito. Pio XII, em seus ensinamentos sobre a ordem moral pública, alertava contra a massificação e a propaganda que distorcem a realidade, impedindo que os povos cheguem a um juízo sereno e justo. Uma ordem internacional saudável, para além da mera conveniência geopolítica, exige que as preocupações de segurança de ambos os lados sejam, no mínimo, ouvidas, e não sumariamente desqualificadas como “irracionais”. Ignorar, por exemplo, a questão dos ataques de Israel a grupos alinhados ao Irã no Líbano, é negligenciar uma peça fundamental da complexa teia de tensões regionais.
O objetivo da comunidade das nações deve ser a construção de uma paz duradoura, baseada em princípios de justiça social e subsidiariedade nas relações internacionais. Isso significa fortalecer os laços de cooperação e reconhecer a capacidade dos povos de se autogovernar, em vez de recorrer à lógica da força bruta ou à submissão incondicional. A força militar, quando necessária, deve servir à justiça e à defesa legítima, jamais à destruição sumária ou à imposição de um modelo hegemônico. A verdadeira fortaleza está em perseguir a paz com persistência, mesmo diante das maiores adversidades, sem sucumbir à tentação da solução fácil da guerra.
A história nos ensina que a paz duradoura não é forjada no caldeirão das ameaças, mas na forja paciente da justiça e da palavra honesta, capaz de erguer pontes onde hoje só há abismos. O Estreito de Ormuz continuará sendo um ponto de estrangulamento até que as nações aprendam a navegar pelos canais da justiça, e não apenas pelas correntes do poder.
Fonte original: Último Segundo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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