O campo de batalha moderno não se limita aos choques de exércitos ou aos estilhaços de cidades; ele se estende à própria arena da verdade, onde fatos são recrutados e narrativas, mobilizadas como armas. Diante da violência que dilacera o Oriente Próximo, com vidas ceifadas e direitos violados, a confusão gerada por certas vozes militantes não apenas distorce a realidade, mas esvazia a própria capacidade de buscar uma solução justa e duradoura. Não se pode alicerçar a paz sobre a areia movediça da retórica ideológica.
É inegável a gravidade de ações que trespassam as fronteiras do direito internacional, como o sequestro de um cidadão espanhol em águas neutras, a prisão de um brasileiro impedido de se despedir da mãe, ou o assassinato de Azam al-Hayya, filho de um negociador palestino. Tais atos, quando verificados, são uma afronta à dignidade da pessoa humana e violam a liberdade ordenada que São Leão XIII nos lembra ser anterior à própria formação do Estado. Eles minam qualquer esforço para a pacificação, cultivando um terreno fértil para a escalada e a desconfiança, e exigem o mais rigoroso escrutínio e a devida responsabilização por parte de toda a comunidade internacional.
Contudo, a legítima denúncia de injustiças não justifica a construção de uma realidade alternativa, onde reveses táticos se transformam em derrotas estratégicas definitivas para um lado, e violências perpetradas pelo outro são sempre apresentadas como puras vitórias da “resistência”. A afirmação de que “não há guerra em curso” entre Hamas e Israel, proferida no mesmo fôlego que se narra o assassinato do filho de um líder do Hamas por forças israelenses em Gaza, e as subsequentes ameaças de “vingança”, não é apenas uma interpretação enviesada; é uma patente contradição. Este modo de noticiar, que submete os fatos a uma tese ideológica pré-estabelecida – a do colapso inevitável do “imperialismo” e da ascensão gloriosa dos “revolucionários” – corrompe a própria ideia de comunicação responsável, como Pio XII nos advertia em tempos de massificação.
A primeira virtude a ser exigida em tempos de guerra, seja ela de armas ou de narrativas, é a veracidade. A ideologia, por sua própria natureza, tende a reinterpretar o mundo não como ele é, mas como ela deseja que seja. É aí que entra a sanidade contra a loucura lógica, para usar a percepção de Chesterton, que nos ensina a desconfiar de sistemas que precisam distorcer o senso comum para se manterem de pé. Não é possível construir uma paz verdadeira sobre alicerces de mentiras ou omissões convenientes. A fortaleza de espírito, nesse cenário, é a capacidade de resistir à tentação de abraçar narrativas fáceis, por mais sedutoras que pareçam ao nosso pendor ideológico, em favor da verdade nua e crua.
O preço de tais distorções é pago por todos. O sofrimento das populações civis em Gaza, no Irã ou no Líbano não é redimido por um “fortalecimento” retórico da “resistência”, se a base factual que sustenta essa narrativa é porosa e auto-contraditória. A ordem moral pública, para ser resguardada, exige clareza de juízo e honestidade na exposição dos eventos, inclusive dos mais brutais. A polarização extrema e a desqualificação total de um dos lados, por mais condenáveis que sejam suas ações, não preparam o terreno para a justiça, mas para a perpetuação do conflito e para a desumanização do adversário. A verdadeira cooperação orgânica entre nações, essencial para uma vida comum pacífica, só pode florescer onde há reconhecimento da realidade em sua inteireza, sem as lentes deformadoras do proselitismo.
Urge, portanto, que se diferencie entre a denúncia legítima de abusos e a manipulação ideológica de fatos. A condenação das injustiças cometidas por qualquer Estado deve ser firme e inequívoca, mas ancorada em provas, não em pressupostos. A busca por um destino comum, que almeja a paz e a estabilidade, demanda a coragem de olhar para o real, aceitando suas complexidades e suas tragédias, sem a necessidade de encaixá-lo em esquemas pré-fabricados.
Um mundo onde a verdade é a primeira vítima do noticiário ideológico é um mundo em perene risco de guerra.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.