A trajetória de Nelson Mandela é um daqueles poucos arcos narrativos que o mundo aprendeu a reverenciar sem reservas. Da luta inabalável contra o apartheid à magnanimidade da reconciliação após 27 anos de prisão, sua figura emergiu como o farol de uma libertação política que prometia a aurora de uma “Nação Arco-Íris” na África do Sul. A imagem de Madiba, erguida sobre as ruínas da segregação legal, é o testemunho da fortaleza humana em face da opressão mais desumana e da esperança inquebrantável em um futuro de paz.
Contudo, a história, quando contada pela lupa da justiça social, revela fissuras profundas na arquitetura da redenção que se seguiu. Enquanto a liberdade política foi conquistada a um custo imenso, a verdade incômoda persiste: a África do Sul pós-apartheid ainda carrega o peso de uma das maiores desigualdades de renda do planeta. A “reconciliação nacional” de 1994, por mais louvável que tenha sido em seu propósito de evitar um banho de sangue, parece ter priorizado a estabilidade política e a integração econômica global em detrimento de uma transformação socioeconômica mais radical e abrangente.
É aqui que a lupa da Doutrina Social da Igreja se faz necessária. A propriedade, ensina o Magistério desde Leão XIII, não é um fim em si, mas um meio ordenado ao bem de todos, com uma inerente função social. O que se observou na África do Sul foi a manutenção, e em certos aspectos a consolidação, de estruturas de poder econômico herdadas do regime segregacionista. A ausência de uma reforma agrária significativa ou de uma redistribuição de recursos que abordasse a expropriação histórica condenou a vasta maioria da população negra a uma persistente marginalização econômica, mesmo sob o manto da liberdade política.
O paradoxo que Chesterton, com sua sagacidade, decifraria: a busca pela ordem sem a fundação da justiça é como construir uma casa sem alicerces, por mais bela que seja a fachada. A “Nação Arco-Íris” tornou-se, em parte, uma narrativa simbólica que, ao celebrar a diversidade política, por vezes obscureceu os conflitos de classe e raça que o dinheiro e a terra continuavam a demarcar. A liberdade de voto não se traduziu na liberdade de acesso a educação de qualidade, saúde digna ou oportunidades econômicas para as comunidades que mais sofreram sob o apartheid.
A escolha de um modelo de transição que priorizou o investimento estrangeiro e a integração liberal à economia mundial, embora talvez ditado pela prudência de evitar uma guerra civil, gerou uma nova elite (incluindo uma parcela da população negra) que se beneficiou das políticas de liberalização, enquanto a massa permaneceu sem capital ou propriedade de terras. O poder simbólico da reconciliação, embora vital para a paz, pode ter inadvertidamente despolitizado a urgente necessidade de mudanças estruturais profundas, desviando a atenção das assimetrias de poder econômico que ainda persistem.
A Doutrina Social da Igreja, que condena as estruturas de pecado e as desigualdades sistêmicas, exige que a justiça não seja apenas comutativa (entre indivíduos), mas sobretudo distributiva (na alocação de bens e encargos sociais) e social (na organização da sociedade para o bem comum). A obra de Nelson Mandela foi grandiosa ao derrubar as barreiras visíveis da opressão. Mas a edificação de uma sociedade verdadeiramente livre exige mais: demanda a coragem de desmantelar as correntes invisíveis da miséria econômica, através de políticas que promovam a propriedade difusa, o salário justo e o fortalecimento dos corpos intermediários.
A África do Sul, livre do apartheid legal, ainda aguarda a plena redenção de uma justiça que alcance todos os seus filhos. A herança de Mandela, ainda que fulgurante na memória da libertação política, permanece um convite a edificar, sobre os escombros da iniquidade econômica, a casa comum de uma justiça que seja, enfim, para todos.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.