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Mailza Cameli: A Tensão entre Grupo, Povo e a Arte de Governar

Analisamos a governadora Mailza Cameli e a tensão entre a ambição eleitoral do 'grupo' e a responsabilidade com o 'povo'. Veracidade, justiça e autonomia frente à retórica da continuidade.

🟢 Análise

A presteza em vencer uma eleição no primeiro turno é, por vezes, a metáfora mais clara da ambição que move o leme do Estado. Governar e candidatar-se são artes distintas, embora muitas vezes entrelaçadas. Uma busca a ordem, a justiça e o bem comum da cidade; a outra, a adesão da maioria, o poder pelo poder, a continuidade de um grupo. Quando a senhora governadora Mailza Assis Cameli afirma que prefere “ganhar logo”, expõe a prioridade de uma campanha que, embora se diga fruto do trabalho, não se furta à dura matemática dos votos e das alianças.

Nesse cenário, a insistência na “fidelidade ao grupo” e na “continuidade da gestão” anterior, liderada pelo ex-governador, revela um nó górdio. O Magistério da Igreja, em especial pelas lentes de Pio XI e Pio XII, há muito nos adverte contra a estatolatria e a massificação do povo. Uma coisa é a legítima articulação política para a estabilidade; outra, é a subordinação da governança aos interesses de uma facção ou à mera manutenção de um status quo. A governadora, ao se descrever como parte de um projeto “pensado junto”, precisa discernir o que é lealdade ao grupo e o que é responsabilidade com toda a população, que é um povo, com suas individualidades e corpos intermediários, e não uma massa de eleitores a ser conduzida.

A gravidade desse conflito entre grupo e povo é sentida na abordagem a temas delicados. A “tragédia ocorrida no Instituto São José”, classificada apenas como “fatalidade”, não pode ser tratada com tal displicência. A justiça exige mais do que a constatação de um infortúnio; demanda investigação rigorosa, identificação de falhas sistêmicas e responsabilização de quem de direito. O Estado, anterior à eleição e à formação de grupos, tem o dever moral inadiável de proteger os mais vulneráveis. Não é suficiente dizer que o governo “tem trabalhado para priorizar a criança”; é preciso demonstrar veracidade nos fatos, transparência nas causas e eficácia nas ações preventivas e reparadoras. A retórica da proteção, sem a substância da ação, torna-se um mero adorno.

Do mesmo modo, quando a governadora promete “continuar tudo aquilo que deu certo”, “dar sequência às grandes obras e aos programas sociais” e aponta para um “avanço muito grande e efetivo” na segurança pública, o cidadão exigente busca os dados concretos, os indicadores de desempenho e as metas verificáveis. A veracidade não se contenta com generalizações. Qual o impacto real dos 139 novos policiais civis anunciados, quando a própria governadora admite que o número “não é o suficiente”? A confiança pública se edifica sobre pilares de transparência e mensurabilidade, não sobre a espuma da propaganda eleitoral.

A garantia de uma vaga de vice ao MDB na chapa, embora seja um movimento legítimo da estratégia política, também expõe a tensão entre a autonomia da gestão e a manutenção do “grupo forte”. Um governo que se quer para “toda a sociedade” precisa se libertar das amarras que possam desviar suas prioridades para conveniências partidárias em detrimento das necessidades mais amplas do povo. A “minha forma de trabalhar” e as “mudanças que entendi necessárias” só serão críveis se resultarem em políticas substantivas que superem a mera continuidade ou o alinhamento político.

A arte de governar exige uma alma que não se contente com a superfície, mas que mergulhe nos alicerces da justiça e da veracidade. Não se trata de buscar o poder pelo poder, mas de exercê-lo como um serviço, com a consciência de que cada decisão é um tijolo na construção do bem da cidade. A real solidez de uma gestão não se mede pela velocidade da vitória eleitoral, mas pela consistência dos seus princípios e pela concretude de seus resultados no cotidiano dos cidadãos.

Fonte original: ac24horas.com – Notícias do Acre

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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