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Ivanir dos Santos: Triunfo Pessoal e Justiça Coletiva no Brasil

Ivanir dos Santos superou racismo. Sua vida inspira, mas a coluna questiona a justiça social estrutural e o reconhecimento coletivo de saberes ancestrais.

🟢 Análise

No vasto e tortuoso mapa das vidas brasileiras, a jornada de Ivanir dos Santos emerge como um farol de resiliência. Sua trajetória, arrancada da mãe na infância para os internatos de uma Funabem ainda em gestação, moldou não apenas um homem, mas um símbolo de superação e uma voz incansável contra as chagas do racismo e da intolerância religiosa. Babalaô, doutor em História, professor universitário, ativista laureado por organismos internacionais e até recebido pelo Papa Francisco, Ivanir forjou um caminho que, por sua excepcionalidade, ilumina e, paradoxalmente, questiona os próprios labirintos da justiça em nossa terra.

Sua história pessoal é um testemunho pungente: a descoberta tardia da farsa que encobria o assassinato de sua mãe por um agente policial, a liderança juvenil nos grêmios clandestinos da ditadura, a contribuição crucial para o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A entrada na academia, a iniciação no Candomblé e depois em Ifá na Nigéria, a fundação da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa e a mobilização anual de milhares na Caminhada pela Liberdade Religiosa – tudo isso compõe a epopeia de um indivíduo que, literalmente, caminhou do SAM à UFRJ, da senzala social aos púlpitos diplomáticos. É, sem dúvida, um triunfo pessoal de fé e inteligência sobre a adversidade brutal.

Contudo, é precisamente nesta glória singular que reside uma preocupação legítima. A Doutrina Social da Igreja, ao defender a dignidade da pessoa humana como princípio fundamental, não se detém no mérito individual, mas estende seu olhar à condição de todo o povo. A vida de Ivanir, ao alcançar validação máxima em estruturas de poder historicamente excludentes – a academia, a Igreja Católica, o Estado –, pode, inadvertidamente, estabelecer um paradigma de legitimação que é de exceção. Um modelo onde a verdadeira excelência e reconhecimento para saberes ancestrais e líderes comunitários passa por uma chancela externa, por títulos acadêmicos ocidentais e prêmios globais, que a vasta maioria das comunidades marginalizadas não tem como replicar.

A justiça social, tal como ensina a Igreja desde Leão XIII e Pio XI, não se esgota na punição de um crime individual, mas exige a transformação de estruturas que perpetuam a desigualdade. O Cais do Valongo e a Pequena África, lembrados por Ivanir como lugares de memória, cultura e esperança, não podem ser apenas símbolos para o diálogo entre elites, por mais bem-intencionadas que sejam. Devem ser, antes, a base para políticas de reparação concretas, enraizadas na solidariedade com aqueles que ainda sofrem a exclusão. A fala de Ivanir sobre a falha da República em garantir o direito pleno de cidadania para a população negra ressoa, e é a partir dessa falha estrutural que a ação precisa se multiplicar, para além do brilho de um só homem.

A valorização dos “saberes tradicionais” por meio da academia é um avanço, mas a subsidiariedade nos recorda que a fonte primária de legitimação de uma cultura reside em sua própria comunidade e em sua autorreprodução. A necessidade de “traduzir” esses saberes para a linguagem hegemônica do diploma pode, no longo prazo, esvaziá-los de sua radicalidade e autonomia. O caminho da veracidade exige que se reconheça a validade intrínseca desses conhecimentos, independentemente de chancela universitária. A humildade pede que não se confunda a ascensão de alguns com a libertação de todos, nem que a recusa do diálogo com o “não preparado” se torne uma barreira intransponível para desconstruir a intolerância onde ela mais viceja.

A vida de Ivanir dos Santos, portanto, não é apenas um feito individual; é um convite e um desafio. Um convite à justiça para com os excluídos e à solidariedade com as comunidades que, geração após geração, têm seus direitos negados. E um desafio para que o reconhecimento das conquistas de um não ofusque a urgência da luta de muitos. Que seu lema, “a educação ninguém tira de você”, seja entendido não como uma rota solitária para a ascensão, mas como uma força para edificar um futuro onde a plenitude de direitos seja um patrimônio comum.

É preciso, pois, que as pontes construídas pelo esforço singular sirvam, de fato, para que um povo inteiro possa marchar em direção à sua plena dignidade, e não apenas para que um herói atravessasse.

Fonte original: racismoambiental.net.br

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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