A palavra, quando proferida por uma nação, pode ser um escudo contra as intempéries externas ou um espelho distorcido da realidade interna. No intrincado palco da política internacional, Teerã ergueu um escudo vocal maciço contra as alegações de Donald Trump, que sugerem divisões na cúpula iraniana. O Presidente Masoud Pezeshkian, seguido em coro pelo Ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, pelo Presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e pelo Primeiro-vice-presidente Mohammad Reza Aref, bradou uma mensagem de coesão absoluta sob a égide do Líder Supremo Ali Khamenei. A insistência em uma “única identidade revolucionária” e a ausência de “qualquer conflito” entre forças armadas e liderança política ressoaram em perfeita sintonia.
Contudo, a veemência e a multiplicidade dessas declarações, emanadas de tantas bocas oficiais e com uma sintonia quase perfeita, acendem um alerta que a Doutrina Social da Igreja, atenta à veracidade na comunicação pública, não pode ignorar. A necessidade de uma refutação tão orquestrada e multifacetada, em resposta a declarações de um político estrangeiro, pode não ser um mero atestado de unidade inabalável, mas antes a projeção estratégica de um ideal. Tal manobra retórica, embora compreensível como defesa em tempos de pressão externa, corre o risco de sacrificar a virtude da veracidade em nome de uma imagem construída.
Aqui reside o paradoxo que Chesterton, com sua sanidade contra a loucura lógica, talvez apontasse: a tentativa desesperada de provar uma unidade absoluta é, por vezes, o maior indício de que ela é mais uma aspiração retórica do que uma realidade orgânica. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, advertiria para o perigo de um Estado que se deifica, exigindo uma homogeneidade que suprime a legítima diversidade de um povo. Um regime que se autoproclama monolítico, sem fissuras ou debates internos, corre o risco de reduzir a complexidade viva da sociedade a uma massa uniforme, como já advertia Pio XII em sua distinção entre “povo” e “massa”. Um povo, por sua natureza, contém o plural, o debate, a divergência de opiniões sobre o caminho a seguir, mesmo sob uma autoridade unificadora.
A preocupação legítima, portanto, não é meramente a existência de possíveis divisões internas – que são inerentes a qualquer corpo político vivo – mas a imposição retórica de uma “unidade” que as nega, impedindo o florescimento da honestidade intelectual e da humildade diante da própria complexidade. Quando a “diversidade política” é mencionada apenas para ser imediatamente suplantada pela “única identidade revolucionária”, resta a questão: existe um espaço para o debate substantivo sobre a direção política e econômica do país que não seja rotulado como “divisão” e, por extensão, como traição?
A verdadeira fortaleza de uma nação reside não na negação de suas complexidades, mas na capacidade de gerenciá-las com transparência e justiça, permitindo que a luz da verdade ilumine tanto seus consensos quanto seus dilemas internos. A projeção de uma frente unida contra uma ameaça externa é um instinto natural, e até salutar, de autodefesa. Mas se essa frente se torna uma fachada que impede o livre intercâmbio de ideias e a crítica construtiva, ela acaba por enfraquecer o organismo social por dentro, mais do que qualquer provocação estrangeira.
Não se constrói uma ordem justa sobre o solo movediço da mera imagem. A dignidade da pessoa humana e a vitalidade de uma nação exigem que a comunicação pública reflita, tanto quanto possível, a realidade, com suas tensões e seus anseios. Rejeitar a crítica externa é um direito soberano; fazê-lo com uma retórica que esmaga qualquer murmúrio de vozes dissonantes, em nome de uma coesão absoluta, é um caminho que, a longo prazo, mina a confiança interna e a autoridade moral.
Uma nação que se fecha em sua própria retórica, cedo ou tarde, descobre que a muralha que ergueu não a protege do mundo exterior, mas a isola da verdade de si mesma e das legítimas nuances de sua gente.
Fonte original: O Cafezinho
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.