A trama política, como um tear complexo, urde seus fios com mais densidade do que se pode perceber à primeira vista. Não raro, a agitação aparente do noticiário esconde as verdadeiras tensões que subjazem às grandes decisões, ou a ausência delas. A recente sucessão de eventos – a rejeição de um indicado para o Supremo Tribunal Federal, a derrubada de um veto presidencial sobre a dosimetria de penas e o arquivamento de uma CPI — foi sumariada por um antigo polemista como a evidência de uma “grande aliança” contra o governo. Mas a tarefa da razão, iluminada pela doutrina, é distinguir o ruído da engrenagem real, o atrito da máquina do que move o sistema.
Não se pode ignorar a série de fatos que alimentam tais diagnósticos. A indicação de Jorge Messias foi, de fato, barrada. O veto do Presidente à norma sobre o 8 de janeiro, que ele considerava uma flexibilização das penas, caiu. E a Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o Banco Master, envolto em um controverso investimento de R$ 400 milhões da Amapá Previdência – cuja gestão tem notórias ligações com o círculo político do senador Davi Alcolumbre, ainda que ele negue interferência e não seja formalmente investigado – foi, também de fato, arquivada. Há, aqui, um campo fértil para a percepção de uma orquestração que visa limitar o Poder Executivo e, talvez, proteger interesses específicos.
Contudo, a verdade no campo político é multifacetada e exige a virtude da veracidade antes de qualquer juízo. É preciso discernir o legítimo exercício das prerrogativas legislativas da mera barganha por poder. O Congresso, em um sistema de freios e contrapesos, possui a autoridade constitucional de rejeitar nomes, derrubar vetos e decidir sobre a instauração ou arquivamento de investigações. Atribuir esses atos invariavelmente a uma “grande aliança” com motivações espúrias, sem evidências concretas de coordenação explícita, pode ser um reducionismo que ignora a diversidade de interesses, as falhas na articulação governista e a legítima discordância política. A Doutrina Social da Igreja, ao defender o princípio da subsidiariedade, lembra-nos que os corpos intermediários e os diversos poderes da república possuem sua autonomia e dignidade, não devendo ser esmagados por uma centralização excessiva ou por uma estatolatria que diviniza o Executivo.
Não significa, porém, que o sistema esteja imune à corrosão. A justiça exige que investigações sobre irregularidades financeiras, como as da Amapá Previdência e do Banco Master, prossigam sem entraves, independentemente das redes de influência que possam atingir. A suspeita de que parlamentares possam usar suas posições para proteger aliados ou si próprios de escrutínio mina a confiança pública e compromete a ordem justa que a sociedade almeja. A polarização, por sua vez, ao levar a decisões que podem beneficiar grupos radicais ou atenuar a responsabilização por atos antidemocráticos, como sugerido pela derrubada do veto do 8 de janeiro, é um perigo real à saúde da república e exige fortaleza moral de todos os agentes públicos.
O verdadeiro dilema moral reside menos na existência de uma “grande aliança” conspiratória e mais na vulnerabilidade constante do sistema político a interesses particulares e à tentação de escapar da accountability. A honestidade e a responsabilidade devem pautar as ações de todos os poderes, garantindo que as prerrogativas constitucionais não se convertam em escudo para a impunidade ou em ferramenta de chantagem. A distinção entre uma oposição legítima e a instrumentalização do poder para fins espúrios é a tarefa mais árdua, mas também a mais necessária para a vitalidade da democracia.
Em suma, a narrativa da “grande aliança” pode ser, em si, um atalho retórico, um modo de simplificar uma realidade política que é, por natureza, complexa e sujeita a múltiplas tensões. O que se manifesta, com mais clareza, é a persistência de vícios antigos: a capilaridade da influência econômica sobre a política, a dificuldade em garantir plena transparência e a recorrente necessidade de que cada poder seja capaz de cumprir seu papel sem ser engolido pela busca incessante de controle ou pela defesa corporativa. O desafio não é demonizar o conflito entre poderes, mas exigir que ele se trave nos termos da justiça, da veracidade e do bem da cidade, e não no pântano dos interesses ocultos.
A qualidade da vida comum se mede na capacidade de suas instituições resistirem à tentação da sombra, agindo à luz da razão e da moral, para que o que é legítimo não se confunda com o que é conivente.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.