A política, em sua tessitura mais fina, é a arte de construir pontes sem demolir as fundações da verdade. Por isso, as palavras de José Genoino, que denunciam um “modelo de conciliação por cima” esgotado e clamam por um “giro para as ruas”, ressoam com a indignação de quem vê a política transmutar-se em jogo de compadrio. Há uma preocupação legítima, um anseio por clareza e por uma identidade ideológica que não se dilua no pântano das conveniências. Genoino aponta para o que considera reveses humilhantes: a atuação do líder do governo no Senado, o “veto fatiado” de Alcolumbre, a rejeição de um indicado ao Supremo Tribunal Federal em meio a discursos religiosos exacerbados, e a controvérsia sobre a “dosimetria” que, para ele, sinaliza uma impunidade contínua. Para o ex-deputado, estes são sinais de um “acordão” que une a direita bolsonarista e parte do Centrão, transformando a política em uma “farsa” e um “golpe continuado” contra a agenda popular.
Contudo, a realidade da governabilidade em uma república de sistema presidencialista e de coalizão, com seu Congresso fragmentado, é um emaranhado de interesses e visões que exigem mais do que a mera confrontação. O clamor por um “enfrentamento” puro, a recusa radical ao diálogo e a expectativa de que as “ruas” imponham a agenda podem, paradoxalmente, levar à paralisia e ao isolamento, inviabilizando as próprias políticas públicas que se pretende defender. O que para alguns se configura como “compadrio” e “acordão”, muitas vezes é o precário, porém necessário, ofício da negociação política, um exercício de prudência que busca construir maiorias e evitar o colapso do sistema, garantindo um mínimo de estabilidade.
É preciso discernir, com acurada justiça, onde termina a legítima negociação e onde começa o puro e simples conluio. A Doutrina Social da Igreja, particularmente através de Pio XI, adverte contra a estatolatria, a absolutização do Estado ou, por extensão, de um partido ou de uma figura carismática, que ignora as diversas esferas da sociedade. Uma política robusta não se constrói nem pela conciliação sem princípios no topo, nem pela mobilização sem mediação nas bases, mas por uma rica teia de corpos intermediários – associações, sindicatos, comunidades locais – que dialogam e colaboram, exercendo o princípio da subsidiariedade. A vida política não é um embate binário entre “governo” e “ruas”, mas um esforço complexo e orgânico para ordenar a vida em comunidade, que deve valorizar a autonomia e a responsabilidade de cada parte.
A retórica que rapidamente classifica reveses legislativos como “golpe continuado” ou “farsa” pode, ao invés de fortalecer a democracia, corroer a confiança nas próprias instituições que deveria defender. É uma tentação perigosa simplificar a complexidade da ação política, reduzindo-a a uma luta puramente ideológica e desconsiderando as múltiplas pressões e os legítimos interesses regionais e sociais que atuam no Congresso. A verdadeira magnanimidade na política exige que se eleve o debate, buscando um projeto civilizacional que transcenda as brigas miúdas e as vitórias pírricas. Isso implica uma capacidade de dialogar mesmo com o “diferente”, não por fraqueza, mas por uma visão superior do destino comum da nação.
O presidente da República, embora seja o chefe de Estado e de governo, não é uma ilha. Sua prerrogativa de indicar para o Supremo, por exemplo, embora soberana, deve ser exercida com vistas à estabilidade e à imparcialidade da Corte, não como arma eleitoral ou concessão a segmentos específicos. A política exige coerência, sim, mas também flexibilidade tática. Exige honestidade para reconhecer os limites do poder e veracidade para apresentar os fatos sem os adornos da propaganda. O caminho para a restauração da confiança não passa por alimentar o ceticismo nem por um isolamento voluntário, mas por um empenho incansável na construção de pontes éticas e institucionais.
A verdadeira arte de governar, afinal, não é caminhar sobre as águas da conciliação vazia nem afogar-se na praça do confronto inconsequente, mas fincar raízes de justiça no solo firme da república.
Fonte original: Diário do Centro do Mundo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.