Há uma tentação permanente na política: crer que a complexidade de uma nação pode ser desvendada e resolvida por uma fórmula mágica, um livro de autoajuda ou um diagnóstico simplificado. O Brasil, em sua labiríntica tessitura de desafios sociais, econômicos e institucionais, é terreno fértil para tais propostas. Nesses cenários, a figura do psiquiatra e escritor Augusto Cury emerge com a promessa de uma “pacificação nacional” e uma gestão que conjuga “mente capitalista com coração social”. A gravidade dos problemas que aponta — dos 1.560 feminicídios anuais à chaga dos quase 8 milhões de jovens que nem trabalham nem estudam, passando pelo alto custo da produção agrícola e pelo inchaço carcerário — é real e clama por soluções urgentes e justas.
Contudo, a verdade, virtude cardinal para a retidão na vida pública, exige que se distinga a retórica grandiloquente da solidez dos planos. Quando um candidato se apresenta como “porta-voz da pacificação” ao mesmo tempo em que brande o termo “esquerdopata”, o contraste não é de estilo, mas de veracidade. A paz duradoura não se constrói sobre epítetos divisivos, mas sobre o respeito mútuo e o reconhecimento da dignidade inalienável de cada pessoa, mesmo na divergência. O caminho para a união nacional não é a imposição de uma retórica singular, mas a árdua construção de pontes fundadas na honestidade intelectual e na capacidade de escuta. Chesterton, com sua perspicácia para os paradoxos modernos, denunciaria a loucura lógica de quem propõe sanar feridas com a mesma língua que as abre.
A ideia de um “superpresidente” com a capacidade de tudo governar, de ditar composições de Supremo Tribunal Federal por critérios etários ou profissionais específicos, ou de redesenhar o sistema político para um “semiparlamentarismo” sem detalhar a transição ou o delicado equilíbrio entre os Poderes, é uma abdicação da humildade política. A doutrina social da Igreja, especialmente pelas vozes de Pio XI e Pio XII, sempre alertou contra a estatolatria e a massificação, que reduzem o povo a uma massa manipulável e concentram excessivo poder nas mãos de um único governante, esmagando os corpos intermediários e a autêntica liberdade ordenada. A governança de uma nação complexa como o Brasil exige não um “superpoder” centralizado, mas a subsidiariedade que fortalece as instâncias locais, a colaboração entre os poderes e a participação responsável da sociedade civil em sua diversidade.
No campo econômico, a proposta de um “Banco do Empreendedor” com juros entre 4% e 6%, enquanto o mercado opera com uma Selic a 14,5% e spreads de 20%, pode soar como “céu de brigadeiro”, mas carece de ancoragem na realidade fiscal e monetária. A justiça social pede apoio aos agricultores e pequenos empresários, que hoje arcam com custos proibitivos frente a lucros marginais. Mas a solução não reside em intervenções estatais descoladas das leis de mercado ou em promessas de financiamento barato sem um plano robusto de capitalização e sustentabilidade. A promoção de uma economia virtuosa exige reformas estruturais, fiscais e tributárias que estimulem a propriedade difusa, o cooperativismo e a responsabilidade, e não apenas a promessa de crédito fácil que pode gerar novas distorções ou dependência do Estado.
Por fim, a preocupação com o superencarceramento brasileiro – o país aprisiona 300% a mais que a China, com 850 mil pessoas atrás das grades – é legítima. No entanto, a proposta de uma “polícia de elite municipal” e o aumento indiscriminado de penas, como 30 anos para feminicídio, sem um claro nexo com estratégias de prevenção, educação e reintegração social, corre o risco de acentuar um modelo que já se mostra falido. A verdadeira misericórdia e a justiça exigem que se olhe para as causas-raiz da criminalidade, para a ressocialização dos que falharam e para a proteção integral das vítimas, em vez de um ciclo meramente punitivo. A anistia para os atos de 8 de janeiro, por sua vez, não pode ser uma questão de conveniência política, mas de um juízo prudente e justo, pautado pela lei e pelo bem comum, sem ceder à tentação de “comprar” a pacificação com a impunidade ou a discricionariedade.
O que o Brasil precisa, portanto, não é de um “vendedor de sonhos” ou de um “superpresidente” que se apresente como o salvador da pátria com um croqui de país nas mãos. Necessita-se de lideranças que, com veracidade e humildade, reconheçam a complexidade do real, respeitem a ordem institucional e construam, tijolo a tijolo, com a participação dos diversos corpos sociais, um futuro mais justo e solidário. A paciência laboriosa de edificar o real é o único caminho para a paz que perdura.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.