Quando a vitalidade da república se vê minada pela corrosão da confiança, não é o acaso, mas a falha humana que desenha o destino da nação. No Equador, as denúncias lançadas por um deputado da Revolução Cidadã contra o governo de Daniel Noboa, ainda que envoltas na retórica polarizada da contenda política, expõem fissuras sérias na ordem da justiça e na transparência devida ao povo. Não se trata de endossar a militância de uma facção, mas de perscrutar os fatos para além da fumaça ideológica.
O cerne do problema reside na aparente promiscuidade entre poder econômico e estatal. A concessão de um perdão de 70 milhões de dólares na dívida do Grupo Noboa com o Tesouro Equatoriano, facilitada por uma lei aprovada no parlamento, clama por uma resposta que satisfaça não apenas a letra fria da norma, mas o espírito da justiça social. O que pode justificar tal benefício a um grupo economicamente poderoso, justamente quando o chefe de Estado é seu herdeiro? A Doutrina Social da Igreja, ao falar da propriedade com função social, adverte que a riqueza não deve servir apenas ao enriquecimento particular, mas ao progresso de todos. Quando o Estado, que deveria ser o zelador do interesse comum, atua como um braço de apoio a interesses particulares, a estrutura da república se abala em seus alicerces.
As sombras se alongam para além das contas bancárias. A proscrição da Revolução Cidadã e de outros partidos das eleições locais, seguida pela antecipação do pleito e uma suspensão que lhes impede a participação, levanta dúvidas inquietantes sobre a integridade do processo democrático. Não basta invocar a lei quando a aplicação da norma se dobra a um cálculo político que busca eliminar adversários. É na pluralidade de vozes e na liberdade de escolha que reside a força de uma sociedade politicamente madura, algo que o princípio da subsidiariedade acentua ao defender a vitalidade das instâncias mais próximas do cidadão contra o esmagamento centralizador. Somam-se a isso as acusações de pressões sobre o Tribunal Constitucional e a suspeita aquisição de meios de comunicação por um deputado governista, com fundos de origem duvidosa, minando a veracidade do debate público e a independência das instituições.
É preciso, contudo, distinguir a gravidade dos fatos da aspereza da linguagem. O discurso que rotula adversários de “neofascistas” ou “narcofascistas”, e que enquadra eventos políticos complexos em uma grande conspiração global de “trumpismo internacional”, revela mais a paixão da militância do que a sobriedade do discernimento. É a “loucura lógica das ideologias” que, como Chesterton nos alertaria, simplifica excessivamente a realidade, erigindo ídolos abstratos onde deveria haver o respeito pelos fatos e pela complexidade da vida humana. Tal retórica, longe de esclarecer, apenas polariza e obscurece a capacidade de um juízo reto.
Mesmo assim, a menção a carregamentos de drogas em portos europeus, supostamente ligados a empresas do Grupo Noboa — ainda que apresentada com a ressalva de “infecção” durante o transporte —, e as discussões sobre uma política externa confrontacionista com a Colômbia exigem mais do que meras negações. A gravidade de tais alegações impõe ao governo o dever de demonstrar com clareza e diligência a retidão de suas ações e a lisura de suas transações, não apenas para apaziguar a oposição, mas para restaurar a confiança dos cidadãos e a credibilidade internacional do país.
Quando um governo se eleva sobre os interesses do grupo familiar, quando a eleição se distorce para silenciar a crítica e quando a informação se converte em arma de propaganda, a nação não avança. O que se pede, em última análise, não é um acordo entre facções, mas a reconstituição de um quadro onde a justiça seja o prumo, a veracidade a moeda corrente e a liberdade um bem que se expande para todos os corpos vivos da sociedade, e não apenas para alguns.
Fonte original: Hora do Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.