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EUA: Eleições, Desconfiança e o Vandalismo da Verdade Cívica

Eleições nos EUA: desconfiança e 'vandalismo da verdade' corroem a integridade cívica. Polarização e subsidiariedade testam a resiliência das instituições democráticas.

🟢 Análise

A máquina eleitoral de uma nação, como qualquer engenho delicado, exige não só precisão em suas engrenagens, mas uma fé inabalável na integridade de seu projeto. Nos Estados Unidos, porém, as eleições de meio de mandato se avizinham sob o ruído de um motor gripado, onde a desconfiança pública, mais do que um defeito isolado, parece ter-se tornado parte da própria paisagem política. Não se trata de uma quebra súbita, mas de um processo de corrosão, lento e deliberado, que hoje ameaça a solidez do pacto cívico.

De um lado, os fatos são inegáveis: a crença na integridade eleitoral despencou com as alegações de “vitória roubada” em 2020 e a interferência presidencial na administração dos votos. A disputa para redesenhar distritos eleitorais, o famoso gerrymandering, atinge patamares históricos, distorcendo a representatividade. Mas, do outro, a robustez das instituições americanas, ancoradas na soberania dos estados para conduzir as eleições e na independência de um Judiciário que rechaçou a vasta maioria das ações de contestação em 2020, demonstra uma capacidade de resistência que não se pode simplesmente desconsiderar. As tentativas de converter o povo, cidadãos com capacidade de discernimento, em uma massa amorfa e reativa, parecem esbarrar nos pilares da ordem jurídica.

O verdadeiro perigo, contudo, não reside na capacidade de um indivíduo ou partido de “roubar” uma eleição por vias escancaradas – os mecanismos de controle democrático se mostraram fortes. A ameaça maior é o que se pode chamar de ‘vandalismo da verdade’: a erosão sistemática da veracidade no debate público, onde a retórica inflamada e a alegação infundada se tornam moeda corrente. O problema não é só a manipulação, mas a disposição de sacrificar a verdade devida ao outro no altar da polarização. Quando uma pesquisa revela que mais da metade dos americanos vê seus concidadãos como ‘moralmente ruins’, acende-se um alerta para a fragilidade da vida comum. Sem um mínimo de confiança mútua e sem a busca honesta pela verdade dos fatos, a própria justiça do processo eleitoral se torna uma quimera, um ideal inalcançável.

A tentação de concentrar o poder sobre o processo eleitoral em mãos federais, como visto nos decretos presidenciais que retiram partes da administração dos estados, revela a síndrome da estatolatria criticada por Pio XI. A crença de que um centro todo-poderoso pode ‘consertar’ a máquina é uma ilusão que ignora a sabedoria da Constituição americana, que delega a administração aos estados, e a vitalidade da subsidiariedade. A integridade das eleições depende, em grande parte, da laboriosidade e da responsabilidade de milhares de funcionários municipais e voluntários que atuam localmente, longe dos holofotes e do ruído da arena federal. Esmagar esses corpos intermediários em nome de uma eficiência centralizada é minar a própria estrutura que garante a confiança de base.

É aqui que o pensamento de Chesterton, com sua perspicácia para desvendar a ‘loucura lógica’ das ideologias, se mostra útil. A sanidade cívica esvai-se quando, na ânsia de proteger a democracia de um suposto inimigo externo, se destrói a confiança em seus próprios mecanismos internos. Não se pode salvar a república semeando a desintegração entre os seus próprios cidadãos. A polarização, onde ‘cada partido passou a ver o outro como trapaceiro’, demonstra a ausência de uma humildade essencial: a de reconhecer os limites da própria perspectiva e a possibilidade da reta intenção, mesmo no adversário político. O espetáculo da desconfiança mútua é um veneno mais potente do que qualquer fraude localizada.

O verdadeiro veredito sobre a democracia americana não será proferido nas urnas de novembro, nem nos tribunais que ainda se avizinham. Ele será lavrado no coração de cada cidadão, na sua capacidade de distinguir a verdade do rumor, a legitimidade da propaganda. O que está em jogo não é apenas o resultado de uma eleição, mas a própria ordem moral pública, a capacidade de um povo de conviver sob o mesmo teto cívico, aceitando os fatos e respeitando as instituições, mesmo quando o resultado não lhes agrada. O dano mais grave, portanto, não é o ‘roubo descarado’ de uma eleição, que a resiliência institucional tem sabido evitar, mas o ‘vandalismo’ persistente e corrosivo da confiança. Reconstruir pontes onde há muros, e edificar a veracidade onde impera a suspeita, é a tarefa mais urgente para que a vitalidade política não se converta em mera e incessante guerra de nervos.

Fonte original: Estadão

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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