Brasília, capital erguida como síntese de um futuro sonhado, chegou a 1990 com a missão de plantar suas próprias raízes democráticas, para além da pedra e cal dos monumentos. As primeiras eleições diretas para governador e para a Câmara Legislativa (CLDF) foram, sem dúvida, um marco histórico, um passo decisivo rumo à autonomia política prometida pela Constituição de 1988. O voto, enfim, chegou para moldar o destino local, e o alto comparecimento eleitoral atesta a esperança vibrante de um povo que ansiava por representação concreta e voz própria.
Contudo, ao descer do pódio da celebração, é forçoso reconhecer que a fundação de uma democracia real é mais complexa do que a mera contagem de votos. A narrativa que pinta o período como um “êxtase político e eleitoral” corre o risco de ofuscar as tensões e assimetrias que marcaram a gestação das novas instituições. A eleição de Joaquim Roriz, que antes ocupava o Palácio do Buriti como governador biônico, não foi uma ruptura total, mas a legitimação de um status quo sob o manto da nova ordem. O passado se estendia sobre o presente.
E é aqui que se impõe o juízo da Doutrina Social da Igreja, particularmente as lições de Pio XI sobre a subsidiariedade e a crítica à estatolatria, e de Pio XII sobre a distinção entre povo e massa. A autonomia política, para ser substancial, exige que os “corpos intermediários” – neste caso, a recém-criada Câmara Legislativa – floresçam com vigor próprio, sem serem abafados ou instrumentalizados por um Executivo onipresente. O registro factual da CLDF iniciando sem regimento interno, com muitos deputados distritais incertos sobre suas próprias funções, e as notórias controvérsias sobre orçamento e servidores, são mais do que meras dores de parto. São sinais de uma fragilidade institucional que podia inclinar o poder para um único lado, sufocando a nascente força legislativa.
A justiça demanda que cada poder exerça sua função com independência e meios adequados, não como um apêndice ou mera chancela de outro. Quando o Poder Executivo, mesmo legitimado pelas urnas, reluta em prover as condições para a consolidação plena do Legislativo, há uma erosão da ordem dos bens e do que realmente constitui o bem da cidade. A falta de veracidade na celebração exclusiva do voto, sem a honesta confrontação das dificuldades estruturais, impede o discernimento necessário para corrigir rumos e fortalecer a arquitetura democrática em sua totalidade. Um povo digno não é uma massa que apenas aplaude, mas uma comunidade capaz de fiscalizar e exigir a integridade de suas instituições.
Não se trata de negar a importância daquele 3 de outubro de 1990. Ele foi o ponto de partida. Mas a história nos ensina que a construção de uma casa sólida exige não apenas a primeira pedra, mas a vigilância constante sobre os alicerces, o cuidado com cada tijolo e a resistência contra as intempéries. Figuras que hoje associamos a escândalos de corrupção já orbitavam o cenário político brasiliense naquela aurora, o que sugere a continuidade de práticas que maculam a pureza de qualquer novo começo.
A verdadeira autonomia do Distrito Federal não se esgotou naquele dia de eleições. Ela é um dever permanente de zelo, de constante busca pela integridade institucional e pela efetivação da justiça em cada instância de governo. Não basta que a semente seja lançada; é preciso que o terreno seja preparado e cultivado para que a árvore da liberdade floresça e dê bons frutos para todos os seus habitantes. O voto é o portão de entrada, mas a democracia se faz na árdua e contínua edificação da lei e da virtude.
Fonte original: Jornal de Brasília
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.