O desembarque em Pequim, adornado com a pompa milenar que a China sabe orquestrar, suscitou no Ocidente a inevitável contabilidade: “quantas vitórias, senhor Presidente?” A resposta apressada, que fala em “poucas conquistas”, trai não apenas uma miopia analítica, mas uma profunda incompreensão do que significa navegar as águas turbulentas da geopolítica em um século de tensões inéditas. Reduzir um encontro de superpotências a um placar de gols imediatos é trocar o discernimento político pela euforia da manchete, a arte da diplomacia pela feira de vaidades.
De um lado, a preocupação é legítima e inadiável. Como não se inquietar com a persistência da retórica chinesa sobre Taiwan, a ilha autônoma cuja liberdade é constantemente ameaçada? Como silenciar diante da condenação de Jimmy Lai, magnata da mídia de Hong Kong, um grito de sufocamento dos direitos humanos que Pequim teima em classificar como “assunto interno”? E que dizer da ausência de compromissos explícitos e verificáveis sobre a contenção do Irã, tema de vital importância para a segurança global, apesar de um alinhamento pontual sobre o Estreito de Ormuz? Essas não são questões menores, mas feridas abertas na carne da justiça internacional, onde a soberania nacional, quando absolutizada, atropela a dignidade da pessoa humana e o princípio da subsidiariedade, que defende as comunidades menores de serem engolidas por entes maiores.
No entanto, o valor de uma cúpula não pode ser medido apenas pelas concessões espetaculares ou pelos apertos de mão que se transformam em cifras bilionárias instantâneas. A narrativa das “poucas vitórias” subestima a complexidade de gerir uma relação que, se desestabilizada, pode custar a paz de milhões. A manutenção de uma “frágil trégua comercial”, a criação de mecanismos para identificar volumes comerciais não sensíveis e até a disposição para debater temas espinhosos como Taiwan e Hong Kong — mesmo sem avanços imediatos — são, em si, atos de prudência estratégica. Em um xadrez de consequências imprevisíveis, a ausência de escalada é, muitas vezes, a maior das vitórias possíveis.
Pio XI, em sua crítica à estatolatria, advertia que o Estado não pode se tornar um fim em si mesmo, devorando as esferas de vida que lhe são anteriores e superiores. Quando Pequim clama que os assuntos de Hong Kong ou a autodeterminação de Taiwan são meras questões internas, ignora a verdade de uma ordem moral universal que transcende fronteiras e regimes. A busca por estabilidade e previsibilidade na relação sino-americana, vital para o comércio e a segurança global, não pode, sob nenhuma hipótese, se tornar um pretexto para o silêncio moral.
É aqui que a veracidade se torna a virtude cardeal. O mercado, com sua avidez por anúncios grandiosos, e a mídia, com seu fetiche pelo drama imediato, tendem a simplificar o teatro da diplomacia. O fato de acordos comerciais terem sido menores que as expectativas de Wall Street, ou de não ter havido um avanço espetacular na venda de chips avançados, não decreta o fracasso da cúpula. Indica, antes, que a diplomacia entre potências nucleares é um trabalho contínuo, granular, focado em “de-risking” e na construção de pontes que evitem o abismo, não na promessa de atalhos mirabolantes.
Chesterton, com seu gênio do paradoxo, teria talvez observado que a loucura do mundo moderno consiste em valorizar mais a aparência do ganho do que a realidade da prevenção. A estabilização de uma relação volátil, a mera manutenção de canais de comunicação abertos e a desativação de potenciais focos de conflito são vitórias silenciosas, mas essenciais, para a ordem global. Não se trata de uma diplomacia de rendição, mas de um discernimento que diferencia o que é fundamental (a justiça e a liberdade) do que é taticamente necessário (a gestão da tensão).
Portanto, o juízo final sobre a visita de Trump à China deve se desvencilhar da contabilidade superficial. Não foi uma cúpula de “poucas vitórias” no sentido de fracasso, mas uma etapa necessária de um esforço diplomático de longa duração, onde a prevenção de um mal maior foi, por ora, a conquista primordial. A verdadeira maestria não se mede pelo número de troféus exibidos na estante, mas pela habilidade de navegar a tempestade, mantendo o barco à tona e a bússola apontada para a paz social que se constrói, dia após dia, sobre a rocha da verdade e da justiça.
Fonte original: Money Times
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.