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Democracia em Cúpula: Retórica e a Busca por Justiça Real

A 4ª Cúpula da Democracia em Barcelona critica retórica seletiva. Líderes como Lula focam em inimigos pré-definidos, negligenciando a veracidade e a justiça social concreta. A paz duradoura exige mais que slogans.

🟢 Análise

A democracia, em seu sentido mais profundo, não é um mero rito eleitoral ou uma coleção de slogans. É a ordem que permite ao povo autogovernar-se sob a lei moral, buscando a paz social e a prosperidade para todos, desde o mais humilde cidadão até o mais alto mandatário. Quando, contudo, a retórica da “defesa da democracia” se ergue em cúpulas opulentas, corremos o risco de converter um ideal perene em andaime de agendas políticas, mais preocupadas em demarcar inimigos do que em edificar alicerces de verdade e justiça.

É compreensível o desejo de líderes como Lula, em Barcelona, de clamar por um “parem com essa loucura de guerra”, um anseio ecoado por milhões de corações aflitos. Também é um gesto necessário e digno que a presidente mexicana Claudia Sheinbaum recorde, em solo espanhol, um “povo trabalhador, criativo, lutador, mas, sobretudo, generoso”, capaz de “resistir sem odiar” e de “crer na paz, mesmo quando a história lhe impôs provas difíceis”. A admissão pública de erros do passado colonial pelo rei Felipe 6º, em março, constituiu um passo no reconhecimento de uma justiça devida. Tais palavras e gestos apontam para a necessidade de reconciliação e de um horizonte de esperança que se eleve acima dos conflitos imediatos.

No entanto, a eloquência de um discurso e a grandiosidade de uma cúpula não substituem a solidez da veracidade na análise dos fatos nem a radicalidade da justiça na busca por soluções. A própria Sheinbaum advertiu: a democracia é “palavra vazia se não for acompanhada de justiça social, soberania e dignidade dos povos”. Mas a que democracia e a que justiça social se referem os 25 líderes presentes, quando o primeiro-ministro Pedro Sánchez já prevê o “esgotamento da internacional ultradireitista”, como se esta fosse a única ou a principal ameaça à liberdade? Onde se situam, na pauta da cúpula, as autocracias de outras colorações políticas, as falhas internas das democracias liberais ou os problemas estruturais que fragilizam a vida das famílias e dos pequenos produtores?

Aqui, a loucura lógica das ideologias se manifesta: ao concentrar a “defesa da democracia” em um inimigo pré-definido, corre-se o risco de transformar o fórum em um tribunal político, onde a condenação precede o devido processo. Um observador astuto como Chesterton poderia apontar o paradoxo de defender a liberdade limitando o espectro do debate, ou de clamar pela paz enquanto se polariza a paisagem política com tal veemência. A genuína defesa da democracia, ensina a Doutrina Social da Igreja, requer uma atenção escrupulosa à realidade concreta, distinguindo entre as preocupações legítimas que alimentam movimentos sociais e a instrumentalização ideológica que os desvirtua.

A verdadeira paz, como nos lembra São Tomás de Aquino, é a tranquilidade da ordem que a justiça instaura, não o silêncio imposto ou o consenso fabricado. Ela exige ações concretas que vão além das declarações em plenário. O que fazem, de fato, os 25 países participantes para deter as “guerras em curso” e o “autocrata disposto a invadir países”? Quais medidas concretas são adotadas para fortalecer a subsidiariedade nas comunidades, garantir o salário familiar, difundir a propriedade e promover a participação orgânica da sociedade civil, em vez de centralizar as decisões em estruturas estatais distantes ou em blocos de poder?

A “paz selada” entre México e Espanha pela retórica de Sheinbaum, por exemplo, é menos um ato de resolução diplomática e mais um eco de um reconhecimento já feito pelo Rei Felipe VI meses antes. A substância da reconciliação se constrói na continuidade das relações, na reparação de injustiças e na solidificação de laços culturais e econômicos que transcendem o palco das cúpulas. Ignorar essas nuances é trocar a complexidade da história e da diplomacia por uma narrativa simplificada, conveniente para o momento, mas frágil diante do tempo.

Portanto, a celebração da 4ª Cúpula em Defesa da Democracia, embora ressalte a importância do ideal, falha em ir além da retórica ao se mostrar seletiva na identificação das ameaças e no desenho das soluções. A verdadeira defesa da democracia e a busca por uma paz duradoura não se operam pela condenação superficial de um inimigo externo, mas pela incessante construção da justiça e da veracidade em cada esfera da vida social, começando pelos alicerces mais próximos: a família, a comunidade, os corpos intermediários.

A paz social e a ordem justa não se improvisam em Barcelona; elas se edificam com o suor da honestidade e a inteligência da boa vontade, dia após dia, em cada canto do mundo que se deseja, de fato, defender.

Fonte original: Folha de S.Paulo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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