Aquilo que se anunciava como uma nova fronteira de criatividade e conexão, um portal para o ilimitado, agora revela-se também uma lente capaz de perverter o humano, fabricando fantasmas e expondo a intimidade a um escrutínio vil. A denúncia do Tech Transparency Project sobre a persistência de aplicativos que criam imagens sexualizadas de pessoas sem consentimento, as chamadas “deepfakes”, nas lojas da Apple e do Google, é mais que uma falha técnica; é um sintoma da erosão moral que a pressa digital e o lucro fácil insistem em normalizar.
Os fatos são frios e claros. Centenas de milhões de downloads, milhões de dólares em receita. A despeito de políticas claras que proíbem material sexualmente explícito e a objetificação de pessoas, esses aplicativos proliferam. As plataformas, com sua promessa de moderação, atuam de forma reativa e tardia: removem uma leva de malfeitores para ver outros tantos reaparecerem, em um jogo de gato e rato que, no fundo, só expõe a fragilidade da guarda e a prioridade distorcida. A Katie Paul, do TTP, apontou o dedo: as empresas não só falham em revisar, como direcionam usuários para o abismo.
Aqui, o Magistério da Igreja, em especial o de Pio XII, ressoa com uma clareza incômoda. Sua advertência contra a massificação e a necessidade de uma mídia responsável, que eleve em vez de aviltar, ganha contornos dramáticos no cenário digital. A “massa”, diferentemente do “povo”, pode ser manipulada, anestesiada, levada ao consumo de baixezas que destroem a ordem moral pública. A dignidade da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, é vilipendiada quando sua imagem é fabricada e sexualizada sem consentimento, tornando-a um objeto à disposição da libido alheia. É uma violência que não sangra, mas mutila a alma e a reputação.
É legítimo argumentar sobre a complexidade técnica. A natureza de “gato e rato” do combate aos abusos tecnológicos é real, e a proliferação de ferramentas de inteligência artificial de propósito geral, que podem ser desviadas para fins malignos, apresenta um desafio de escala. Contudo, essa complexidade não é um salvo-conduto para a irresponsabilidade. A dificuldade na erradicação total não justifica a lentidão na ação, a opacidade na fiscalização ou a aceitação tácita de um modelo de negócio que lucra com a degradação humana. O argumento de que uma regulação mais estrita sufocaria a inovação ignora que a verdadeira inovação serve ao homem, não o devora.
Impõe-se, pois, a virtude da justiça. As plataformas devem mais que meramente reagir; precisam agir com proatividade e transparência, arcando com a responsabilidade inerente ao poder que detêm sobre o ecossistema digital. A justiça exige que se proteja a privacidade e a imagem do indivíduo, que se remunere o devido, e que se penalize exemplarmente quem lucra com a exploração. A veracidade, por sua vez, demanda que essas empresas sejam honestas sobre a capacidade de suas ferramentas e o risco que representam, abandonando a ficção de uma neutralidade que o lucro desmente. E a temperança é o freio contra o frenesi da “inovação” sem bússola moral, que se entrega aos apetites mais baixos da massa em nome do engajamento e da receita.
O Estado tem um papel insubstituível. A lei `Take It Down Act` nos EUA e as iniciativas regulatórias no Reino Unido são passos necessários para criminalizar e obrigar a remoção. Mas a ação estatal deve ser acompanhada pela consciência das corporações. Como ensina Leão XIII, a família precede o Estado e a propriedade privada tem função social. A imagem pessoal é uma propriedade, e sua deturpação afeta a família, a sociedade primeira. A lógica da subsidiariedade, defendida por Pio XI, exige que as plataformas, enquanto “corpos intermediários” da sociedade digital, assumam sua cota de responsabilidade antes que o Estado precise intervir com força total, o que pode levar a vigilâncias excessivas. O fim não é o lucro; é o homem.
Não se trata de banir a tecnologia, mas de domesticá-la ao serviço da verdade, da beleza e da bondade. A tela, que promete janelas para o mundo, não pode se tornar o falso espelho de um inferno fabricado onde a dignidade humana é o mais vil dos passatempos.
Fonte original: Alagoas 24 Horas: Líder em Notícias On-line de Alagoas
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.