A cena em Havana, com apagões que engolem as últimas esperanças e prateleiras vazias que zombam das promessas, está longe de ser um drama simples de David contra Golias. É uma tragédia multifacetada onde o rugido das ameaças externas, ainda que real e condenável, paradoxalmente se presta a encobrir as rachaduras internas de um edifício que cede sob o peso da própria rigidez. A nação cubana, de fato, se vê acossada, mas a narrativa que reduz seu sofrimento a uma única causa externa, ainda que conveniente para o poder, falha à veracidade e à dura realidade do povo.
É inegável que as sanções americanas, iniciadas nos anos 60 e endurecidas recentemente com o bloqueio de combustível, são uma asfixia. A bravata de Donald Trump, clamando pela “honra de tomar Cuba”, e os discretos planejamentos do Pentágono, são agressões que nenhuma nação soberana deveria suportar. A voz de Carmen, de 70 anos, clamando por um entendimento entre governos para pôr fim às sanções e evitar as “consequências funestas” de uma guerra, é um eco pungente da verdade. Mas reduzir a penúria cubana apenas ao “inimigo gigante do norte” seria incorrer na falácia da causa única, ignorando décadas de gestão econômica centralizada, falta de investimento e incentivos inadequados que já fragilizaram a ilha. Os seis apagões em um ano e meio, a escassez de alimentos e o transporte caótico precedem o último endurecimento do bloqueio, evidenciando uma vulnerabilidade estrutural profunda.
Aqui, a Doutrina Social da Igreja adverte contra a tentação da estatolatria, o culto ao Estado, que se sobrepõe à dignidade e às necessidades concretas das pessoas. Pio XI, em “Quadragesimo Anno”, já criticava a excessiva centralização, que atrofia os corpos intermediários e aniquila a iniciativa privada. Quando o presidente Díaz-Canel admite “conversas com Washington para buscar soluções”, e o romancista Leonardo Padura lamenta que “se tenta fazer o que poderia ter sido feito antes”, revela-se a dolorosa constatação de que a rigidez ideológica e a demora em reformas internas custaram caro. A liberdade ordenada, defendida por Leão XIII, que permite o florescimento da família, da propriedade privada com função social e das associações livres, seria o antídoto à massificação imposta por um sistema que confunde povo com massa, esvaziando a autonomia da sociedade civil, como ensinava Pio XII.
A retórica de “resistência inexpugnável”, embora apele a um espírito heroico (como notou Padura), pode ser, como um Chesterton apontaria em seu paradoxo, a sanidade que se transforma em loucura lógica: um escudo conveniente que desvia o olhar das responsabilidades internas. A suposta iminência de uma intervenção militar, embora perigosa, é vista por especialistas como Gerson Damiani como mais uma questão simbólica, um recado de poderio à China e à Rússia, do que um plano concreto de ocupação. Essa instrumentalização da ameaça externa serve, muitas vezes, para galvanizar um apoio que não brota espontaneamente da satisfação, mas do medo e da necessidade de coesão contra um inimigo comum, silenciando o legítimo descontentamento.
Contudo, a Fortaleza não se manifesta apenas na resistência a uma invasão, mas também na coragem de encarar as próprias deficiências e promover a justiça internamente. A “cubaneidade” que Frei Betto observa é um nacionalismo arraigado, sim, mas não pode ser um pretexto para ignorar o “cansaço e a desesperança” de muitos cubanos que, como aponta Padura, “desejam mudanças a qualquer custo”. A verdadeira força de um povo emerge de sua capacidade de se auto-organizar, de cultivar a laboriosidade e a responsabilidade em seus próprios corpos sociais. A subsidiariedade seria o farol: fortalecer o que está perto – as famílias, as comunidades, as empresas locais – não as esmagar em nome de um planejamento central que falha repetidamente.
As iniciativas de energia renovável, a ajuda humanitária chegando e a solidariedade de artistas como Chico Buarque são bem-vindas, mas são apenas paliativos se não forem acompanhadas de uma revisão profunda do modelo. O destino de Cuba não reside na mera dependência de fluxos externos, sejam eles humanitários ou ideológicos. A restauração da ordem moral pública passa pela edificação de uma sociedade onde a propriedade difusa fomenta a iniciativa, onde a transparência curricular e os conselhos escola-família-comunidade recriam um tecido social livre, e onde os institutos de virtude moldam cidadãos capazes de construir uma pátria próspera e verdadeiramente livre.
A lição de Cuba, para todos nós, é que a liberdade não se compra nem se mendiga. Conquista-se, dia após dia, com a veracidade diante dos fatos, com a fortaleza de reformar o que está enfermo dentro de casa e com a justiça que reconhece a dignidade de cada pessoa e sua inalienável capacidade de construir seu próprio futuro.
Fonte original: ISTOÉ Independente
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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