A política, diz-se, é a arte do possível, um balé de acordos e rearranjos onde o pragmatismo muitas vezes dança com a oportunidade. Contudo, quando a nomeação de um ministro para o Supremo Tribunal Federal é barrada e um veto presidencial é derrubado em rápida sucessão, não se trata apenas de manobras corriqueiras do tabuleiro. As peças desse jogo, postas em movimento, revelam mais do que a simples barganha parlamentar; expõem uma fissura na própria arquitetura da vida cívica, convidando a um juízo que vá além do mero cálculo de forças.
Rui Pimenta, em sua leitura incisiva, descreve o episódio como um “duríssimo golpe contra Lula” e um “ataque direto” contra sua candidatura futura. Sua análise, embora tingida por uma lente ideológica que enxerga uma “burguesia” unificada a tramar contra o Executivo, toca em preocupações legítimas: a instabilidade das alianças no sistema político brasileiro, a influência de interesses privados – como o ventilado “caso Banco Master” – nas decisões de alto escalão, e a fragilidade de uma governabilidade edificada sobre pactos efêmeros. A percepção de que instituições como o STF podem ser instrumentalizadas por acordos de bastidores corrói a confiança pública e levanta sérias questões sobre a veracidade dos propósitos declarados.
Mas a explicação monocausal e conspiratória de Pimenta, ainda que ecoe a frustração de muitos, corre o risco de ofuscar a complexidade inerente à democracia. O parlamento, por sua própria natureza, é um palco de interesses díspares, nem sempre coordenados por uma única vontade oculta. Reduzir a ação de grupos tão heterogêneos como o Centrão, membros do Judiciário e figuras da direita a um “ataque” planejado ignora a multiplicidade de motivações — sejam elas legítimas discordâncias, barganhas pontuais ou puro oportunismo. A retórica que busca confirmar teses preexistentes sobre a “traição burguesa” pode desviar o olhar do que é um problema real de responsabilidade institucional e clareza de intenções, confundindo a crítica dos fatos com o mero alinhamento a uma guerra cultural de deslegitimação.
A Doutrina Social da Igreja, ao invés de endossar a lógica do poder como fim em si mesmo, clama por uma justiça que transcenda a soma dos interesses particulares. Leão XIII nos lembra da liberdade ordenada e dos corpos intermediários – associações livres, comunidades locais, o próprio parlamento – como estruturas orgânicas que devem mediar e representar, e não ser esmagadas por um poder centralizado ou por acordos de cúpula. Pio XI, ao criticar a estatolatria e defender a subsidiariedade, adverte contra a tentação de concentrar no Estado atribuições que podem e devem ser exercidas por esferas sociais menores e mais próximas do povo. A arte política, portanto, não pode se reduzir à mera sobrevivência pelo acordo, mas à edificação paciente de uma ordem onde a autoridade se legitima pelo serviço ao bem comum, e não pela habilidade em manipular as facções.
A ausência de evidências concretas para as alegadas articulações bilionárias ou para a “ruptura geral” descrita por Pimenta não invalida a legítima preocupação com a transparência e a accountability. Se “o homem da política, a arte do possível” – como Pimenta descreve Lula – não consegue consolidar apoios para nomeações e vetos, isso aponta para uma crise de capital político ou, mais profundamente, para uma falta de princípios que cimente as alianças. Não é sobre demitir este ou aquele, mas sobre a orientação geral do governo e a qualidade de suas alianças. A política, para ser virtuosa, exige mais do que a destreza em fazer acordos; exige a coragem de mantê-los e a sabedoria de fazê-los com vista a um horizonte que transcenda a próxima eleição.
Quando as ruas, como Pimenta lamenta, parecem esvaziadas de uma esquerda organizada e entregues à extrema direita, isso é um sintoma da falha em articular um projeto político que seja, ao mesmo tempo, enraizado em princípios e capaz de mobilizar o “povo” – não a “massa” manipulável de Pio XII – para além dos gabinetes e das manobras de bastidores. O problema, em última análise, não é a existência de um parlamento heterogêneo ou de um Judiciário que exerce seus contrapesos, mas a ausência de uma magnanimidade na liderança que eleve o debate acima do interesse miúdo e da estratégia eleitoral imediatista. Uma república se constrói sobre a solidez de princípios e a busca incansável pela verdade, não sobre a areia movediça da “arte do possível” despida de virtude.
A política do possível, quando divorciada da justiça e da veracidade, condena o governo a uma perene instabilidade, à mercê dos realinhamentos de uma burguesia que Pimenta acertadamente descreve como não tendo “amor a ninguém”. É preciso resgatar a política como a arte de edificar a cidade justa, e não como o palco de um teatro de sombras onde a traição é a norma e o bem comum, mero adereço.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.