A voz que ecoa dos calabouços, por vezes, seduz mais que a razão. A narrativa de Fernandinho Beira-Mar, exilado há décadas na escuridão dos presídios federais, ofereceu ao público uma tese que, à primeira vista, soa plausível: a de que a própria arquitetura de segurança máxima do Estado foi o cadinho onde o crime organizado nacionalizou suas facções. Tal afirmação, amplificada por certos veículos e análises apressadas, converte-se em uma espécie de meia-verdade que, como toda meia-verdade, serve mais para encobrir do que para revelar a estrutura profunda da anarquia criminosa que se alastra pelo país.
Os fatos, porém, resistem à sedução do melodrama autobiográfico. O Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital surgiram e se desenvolveram dentro do sistema carcerário estadual, nas “cidades carcerárias” do Rio de Janeiro e São Paulo, muito antes de os presídios federais serem sequer uma realidade central na estratégia de segurança. A expansão interestadual dessas facções, longe de ser um subproduto da transferência de líderes para unidades federais, era um movimento anterior, calcado na lógica de rotas de tráfico, armamentos e, crucialmente, na fragilidade das fronteiras e na permeabilidade de setores estatais. O próprio Beira-Mar, antes de seu encarceramento federal em 2006, atuava como um articulador logístico transnacional, financiador e mediador de alianças nas complexas redes de cocaína e armas que atravessam a América do Sul. A ideia de que um líder, enclausurado e vigiado, pudesse dali comandar uma expansão nacional é um equívoco que despersonaliza a responsabilidade, transformando o “sistema” num bode expiatório conveniente.
Contudo, ao corrigirmos um erro, não devemos cair no oposto. A complexa teia da “governança criminal nodal”, que descreve o crime como um sistema descentralizado e desconcentrado, com múltiplos nódulos funcionalmente especializados, é uma lente mais precisa para compreender sua resiliência. Essa visão evita a falácia de atribuir a um único centro de comando a totalidade da operação. No entanto, a tese de que prender lideranças não altera “de forma substantiva” os esquemas criminais, embora reflita uma realidade de adaptabilidade, pode, em sua dureza, subestimar o papel indireto e simbólico das cadeias. Presídios de segurança máxima, ao concentrarem figuras de alto escalão, mesmo que sob vigilância, podem inadvertidamente tornar-se espaços de legitimação, de trocas de informações estratégicas ou de incubadoras de novas arquiteturas operacionais para a rede. A fragilização do poder individual de comando não implica o desaparecimento da capacidade de articulação ou da autoridade moral residual.
A virtude da veracidade exige que separemos o que é fato do que é narrativa conveniente. O discurso de Beira-Mar, legitimado por certa mídia e acadêmicos, tem o potencial de exacerbar a desilusão pública, desmotivando agentes de segurança e questionando o propósito da ação estatal. O modelo da governança criminal nodal, por sua vez, ao expor a co-governança entre atores criminais e institucionais, revela uma profunda assimetria de poder que o cidadão comum é refém. A ordem moral pública, que é dever primário do Estado, não pode ser reduzida a uma mera constatação da invencibilidade do crime. A constatação da complexidade não deve levar à paralisia, mas a uma inteligência e justiça mais apuradas na ação.
O Estado, em sua função de salvaguardar o bem da cidade, precisa compreender essa arquitetura invisível para desmantelá-la. Isso passa por uma política de segurança que vá além da figura do chefe preso e atinja os nódulos de logística, finanças e articulação institucional. As lições de Pio XII sobre a distinção entre povo e massa nos alertam para o risco de uma sociedade onde a responsabilidade individual se dilui em estruturas amorfas, sejam elas estatais ou criminosas. É preciso fortalecer as instituições, depurar seus quadros e implementar políticas de transparência curricular e formação de virtudes que contraponham a moral do crime com a ética da lei natural. A guerra contra o crime organizado é uma batalha pela verdade das estruturas sociais, pela integridade do Estado e pela soberania da lei.
A verdade, em sua complexidade, não absolve o crime, mas ilumina o caminho para a justiça que liberta a nação da tirania das meias-verdades.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.