O chamado para vislumbrar a Copa do Mundo de 2026, com sua inédita dimensão de 48 seleções, acena com a promessa de um espetáculo verdadeiramente global. Espera-se, de tal convite, um juízo premonitório que, se não puder abarcar a totalidade, ao menos preserve a integridade da verdade e a justiça da perspectiva. Contudo, quando a análise de um torneio mundial se permite reduzir ao quintal de um único continente e, pior, tropeça em dados básicos, o que se oferece ao público não é uma prévia, mas um reflexo distorcido, manchado pela irresponsabilidade factual e por um olhar viciado.
Não há, no campo do esporte ou da vida pública, legitimidade que resista à erosão da inverdade. Quando uma “prévia” de times da Europa erra o ano de um título mundial da Espanha (apontado para 2020, quando o correto é 2010), confunde técnicos de seleções protagonistas (Thomas Tuchel na Inglaterra em vez de Gareth Southgate) ou desloca jogadores para clubes onde não atuam (Wirtz no Liverpool, Modrić no Milan), o que se desvela é mais que um descuido pontual: é uma patente falha na veracidade elementar. A comunicação responsável, princípio basilar da reta informação, exige que os fatos sejam ancorados na realidade, não em projeções apressadas ou em uma negligência que denigre a própria intenção de informar. Como esperar um discernimento acurado sobre o futuro se o presente é mal-apresentado?
É inegável que a Europa detém um histórico glorioso no futebol, com 12 títulos em 22 Copas disputadas, e suas ligas são centros de atração global de talentos. Reconhecer essa preeminência histórica é um ato de honestidade intelectual. Todavia, a realeza social de Cristo se estende a todos os povos, e a beleza do futebol, em sua manifestação mais grandiosa, reside justamente na diversidade de nações que o celebram. Uma Copa do Mundo com 48 seleções, com um aumento substancial de vagas para África (CAF), Ásia (AFC) e Concacaf, e com potências sul-americanas como Brasil e Argentina – as mais recentes campeãs e vice-campeãs – exige uma justiça distributiva na atenção. Limitar a análise a um punhado de equipes europeias, listando os demais como meros adversários, é uma manifestação de narcisismo continental que empobrece a compreensão do fenômeno global.
Argumentar que uma “prévia das seleções europeias” se justificaria por seu escopo é ignorar a magnitude do evento que se aproxima. A Copa do Mundo é o ponto de convergência de todas as confederações, e mesmo as mais destacadas forças europeias se confrontarão com estilos, culturas e táticas que nascem para além de suas fronteiras. Além disso, a presença de talentos globais nas ligas europeias não transfere magicamente o protagonismo de suas seleções nacionais para as equipes europeias em um Mundial. Pelo contrário, sublinha a riqueza do intercâmbio, mas não anula a identidade e o potencial das nações que os formaram. A verdadeira compreensão do futebol mundial pede uma visão magnânima, que abarque os diferentes centros de força e as variadas expressões do esporte.
O impacto de uma análise tão unilateral e factualmente falha não é trivial. Ela priva os torcedores de uma visão equitativa e completa, perpetua estereótipos de domínios e subestima a evolução tática e técnica que permeia todo o orbe futebolístico. A ausência da Itália, uma tetracampeã, pela terceira vez consecutiva, e as eliminações precoces da Alemanha em Mundiais recentes são lembretes vívidos de que o passado não é garantia do futuro, e que a soberba de um continente não se sustenta apenas em pergaminhos antigos. O que se impõe é uma humildade intelectual que reconheça a dinâmica do jogo e a imprevisibilidade inerente ao esporte.
Assim, a “prévia” que se propõe a guiar o olhar do torcedor para a Copa de 2026 deve ser mais do que um eco dos próprios preconceitos. Ela precisa ser um exercício de veracidade e justiça, um reconhecimento da complexidade de um evento que, por sua própria natureza, é um encontro de povos e culturas. Não se edifica a paixão pelo esporte sobre as ruínas da verdade, nem se honra a grandeza do futebol mundial com uma lente embaçada pela parcialidade.
Fonte original: Marcelo Bittencourt
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.